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Depois de terem ficado abaixo dos mil casos em 2016, o que não acontecia há dez anos, os suicídios voltaram a aumentar.
Em 2017, foram registados mais 80 suicídios, o que representa um acréscimo de 8% para um total de 1061 casos.
Os mais recentes dados do Instituto Nacional de Estatística mostram ainda que foi nas mulheres que a subida foi mais expressiva.
Especialistas ouvidos pelo JN pedem cautela na leitura dos números, devido a flutuações de conjuntura, mas alertam para a necessidade de maior resposta à população na área da saúde mental.
Os homens continuam a responder pela maioria dos óbitos (74%), mas, no período em análise, foi nas mulheres que a subida foi mais impactante, com um aumento de 19% para os 274 suicídios (mais 43 casos), que compara com um acréscimo nos homens de 5% para as 787 mortes. A taxa bruta de mortalidade mantém-se mais elevada no Alentejo, com enfoque no Litoral (30,8%). Em termos absolutos, foi na Área Metropolitana de Lisboa que se registaram mais suicídios, num total de 267, com particular incidência na faixa etária dos 45-54 anos. Em termos nacionais, a idade média do óbito por lesões autoprovocadas intencionalmente foi de 59 anos - 59,3 anos para os homens e 58,2 para as mulheres.
Maior atenção
Tanto o presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia (SPS) como o presidente do Conselho Nacional de Saúde Mental (CNSM) alertam o JN para o facto de as estatísticas do suicídio sofrerem ligeiras variações ao longo dos anos. Pelo que não há uma explicação, mas um conjunto delas, na medida em que, frisam, neste domínio não há verdades absolutas.
Feito o ponto prévio, Fausto Amaro, da SPS, frisa que, "sempre que há um aumento, devemos ficar preocupados". Sobretudo se tivermos em conta, explica, que a tendência, em Portugal e na Europa, "é para a descida do suicídio".
Face ao acréscimo verificado em 2017, nomeadamente nas mulheres, recomenda que o "serviço de saúde mental esteja mais atento a este fenómeno, pondo em prática o que está previsto no Plano Nacional de Prevenção do Suicídio. "Pode ser reflexo do apoio que não estamos a dar às pessoas", afirma, ao JN, Fausto Amaro.
Na mesma linha, António Leuschner, do CNSM, admite que, "por vezes, os serviços especializados não têm a capacidade de deteção precoce que seria desejável". A que se junta o facto de, sublinha o também presidente do Hospital de Magalhães Lemos (Porto), haver mais recursos, tanto físicos como humanos, no litoral do que no interior.
As causas são conhecidas: doença mental, condições económicas e condições de vida objetivas. A prevenção, diz Fausto Amaro, "é muito importante, exigindo um bom funcionamento dos serviços de saúde". Nomeadamente, adianta, dos cuidados de saúde primários, que devem ser "treinados e alertados para despistar estes casos". Por último, urge também um "apoio social às famílias, área que é descuidada", conclui.
Registo das causas
Desde 2013, o registo de causas de morte passou a ser mais exato com a introdução do Sistema de Informação dos Certificados de Óbito. Poderá, diz Fausto Amaro, explicar alguma subida.
Taxa bruta aumenta
A taxa bruta de mortalidade passou dos 9,5 óbitos por cem mil habitantes, em 2016, para os 10,3 (16,1 para os homens e 5,1 para as mulheres).
50 suicídios no Tâmega
No ano em análise, e comparando com 2016, registaram-se mais 21 suicídios no Tâmega e Sousa, num total de 50. O acréscimo foi maior nas mulheres: de três passou-se para 14 óbitos.
"Já é uma causa importante de morte nos jovens"
Em 2017, há registo de 46 suicídios de pessoas com menos de 24 anos, uma das quais ainda na faixa etária dos 5-14 anos. São mais 15 casos face a 2016. E, só na Área Metropolitana de Lisboa, registaram-se mais 11 suicídios de jovens entre os 15-24, para um total de 15 casos. Um dado "muito preocupante", entende o presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia, que avisa que o "suicídio já é uma causa importante de morte nos jovens". Fausto Amaro não tem dúvidas de que urge um "maior apoio na área da saúde mental dos jovens porque é uma área de grandes riscos, com muita influência das redes sociais".
