
Ana Rita Carlos
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Quatro investigadoras, já doutoradas, recebem, esta quarta-feira, as Medalhas de Honra L'Oréal Portugal para as Mulheres na Ciência, na sua 16.ª edição.
Das microalgas à distrofia muscular, passando pelas células imunitárias e pela terapia fágica. São quatro os projetos científicos hoje distinguidos pelas Medalhas de Honra L'Oréal Portugal para as Mulheres na Ciência. Jovens mulheres, cientistas, doutoradas, de seu nome, e por ordem de projeto: Ana Luísa Gonçalves, do LEPABE, da Faculdade de Engenharia do Porto; Ana Rita Carlos, do cE3c, da Faculdade de Ciências de Lisboa; Cristina Godinho-Silva, da Fundação Champalimaud; e Diana Priscila Pires, do CEB, da Universidade do Minho.
ANA LUÍSA GONÇALVES, 3O ANOS, LEPABE, Fac. Engenharia Univ. Porto O papel das microalgas na sustentabilidade
Microalgas versus efluentes industriais. Rumo à sustentabilidade. Investigadora no Laboratório de Engenharia de Processos, Ambiente, Biotecnologia e Energia (LEPABE), da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Ana Luísa Gonçalves centra a sua investigação na cultura das microalgas para produção de biomassa, captura de dióxido de carbono e assimilação de nutrientes. Aqui canalizou os seus esforços na tese de doutoramento, em 2017, acrescentando-lhe agora a indústria. Aos 30 anos de idade, a cientista quer perceber se as microalgas conseguem assimilar o azoto e o fósforo que permanecem nos efluentes industriais já mesmo depois de tratados. Bem como poderá a sua biomassa ser valorizada em novas aplicações. Aproveitando a localização a Norte, apostou no tratamento terciário dos efluentes das indústria do têxtil e da pasta e papel. Ver agora este trabalho reconhecido é, por isso, para Ana Luísa Gonçalves "muito gratificante", por ser uma área, diz ao JN, de "enorme potencial para uma economia mais sustentável e com menores impactos ambientais". Um "marco" na sua "independência científica" e no desenvolvimento da sua investigação na área das microalgas.
ANA RITA CARLOS, 34 ANOS, cE3c, Fac. Ciências Univ. de Lisboa Mecanismos da distrofia muscular
Ana Rita Carlos sabe que "ser cientista é, muitas vezes, um desafio". É "saber olhar para um mau resultado e saber o que mudar para a próxima". Sem nunca "virar a cara". Aos 34 anos, o desafio a que esta investigadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c), da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, se propôs sai fortalecido com uma distinção que, diz ao JN, dá "ênfase ao interesse e impacto" do seu projeto. Que visa compreender de que forma se desenvolve a distrofia muscular congénita merosina-negativa (MDC1A), associada a mutações genéticas no gene LAMA2, doença incurável. A MDC1A é a forma mais comum de distrofia muscular congénita, manifesta-se a partir da nascença, comprometendo a capacidade de andar, engolir e respirar. Ana Rita Carlos quer saber se as mutações no LAMA2 podem levar ao envelhecimento precoce das células dos músculos e consequente perda das suas funcionalidades. Como frisa a doutorada em Radiobiologia pela Universidade de Oxford, "se conseguirmos desvendar os mecanismos que desencadeiam esta distrofia teremos pistas que podem", no futuro, "dar melhor qualidade de vida" a quem sofre desta doença.
CRISTINA GODINHO-SILVA, 33 ANOS, Fundação Champalimaud Impacto do relógio biológico nas células
Cristina Godinho-Silva já havia identificado, em investigações anteriores, que o relógio biológico, comandado pelo cérebro, regula as células linfóides inatas tipo3, fundamentais para o bom funcionamento de órgãos como os intestinos. Agora, a investigadora da Fundação Champalimaud tem "resultados que indicam que outro grupo de células linfóides inatas, as ILC2s - essenciais para a saúde e função dos pulmões e rins - também são reguladas por este relógio biológico". Projeto agora distinguido, num incentivo extra para "continuar a explorar e a abrir novos horizontes" na sua área de investigação. Sabendo a investigadora de 33 anos que, em Portugal, "a ausência da carreira de investigação científica, a inexistência de contratos de trabalho e a não integração dos cientistas nas instituições e universidades em que trabalham é uma realidade incompatível com o progresso da ciência". E é nesse progresso que esta doutorada em Ciências Biomédicas pela Faculdade de Medicina de Lisboa trabalha, ao tentar "compreender como é que o relógio biológico regula a atividade das ILC2S" e de que forma a sua desregulação pode contribuir para doenças como a insuficiência renal, a asma ou alergia.
DIANA PRISCILA PIRES, 32 ANOS, Centro Eng. Biológica, Univ. do Minho Terapia fágica no combate a bactéria
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considerou-a um risco para a saúde pública. De seu nome "Pseudomonas aeruginosa", bactéria patogénica resistente a antibióticos e associada a graves infeções hospitalares. E tem como alvo a investigação de Diana Priscila Pires, que trabalha numa ferramenta de edição genética que lhe permita melhorar as propriedades antibacterianas dos bacteriófagos que combatem as infeções causadas por aquele bacilo. Explique-se que os bacteriófagos (ou fagos) são vírus bacterianos inofensivos para os humanos, mas com capacidade para atacar bactérias nocivas, como a "P. aeruginosa". O objetivo da investigadora do Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho é "criar uma ferramenta para gerar bacteriófagos com propriedades antibacterianas melhoradas". Numa terapia fágica contra uma bactéria cujo combate a OMS considera prioritário. Aliás, foi sobre esta terapia que Diana fez recair o seu doutoramento colaborativo na UMinho e no Massachusetts Institute of Technology. Bolseira pós-doc desde 2017, Diana conseguiu uma posição no último concurso, mas desde a divulgação dos resultados, em novembro, que espera pela assinatura do contrato.
