Entrevista JN/TSF

Luís Montenegro: Rio não está em condições de ser "alternativa sólida" ao PS

Luís Montenegro: Rio não está em condições de ser "alternativa sólida" ao PS

Tentou conquistar a liderança do PSD em 2019 e perdeu. Prometeu silêncio. E em silêncio ficou. Até às vésperas das eleições autárquicas. Agora assegura não ser candidato, mas está preparado para a disputa interna da liderança. Considera "natural" que haja (pelo menos) dois candidatos e defende que a prioridade, seja qual for o escolhido, é mudar a estratégia do partido e criar uma alternativa forte ao PS.

Já falou com Paulo Rangel depois das eleições?

Já falei com muitas dezenas de militantes e responsáveis do PSD. Não queria estar a destacar nenhum, porque todos foram importantes. E de todos os quadrantes que quiser: pessoas que quiseram colaborar comigo, pessoas que estiveram comigo na última campanha interna, e também pessoas que não estiveram, pessoas da direção nacional do PSD. Num partido político há opiniões diferentes, posicionamentos diferentes, há opções diferentes, mas somos o mesmo partido. Nós não temos adversários dentro de portas, temos adversários fora de portas.

E o que é que tem andado a falar com esses militantes todos, inclusive com Paulo Rangel?

Temos falado com todos estes dirigentes, autarcas, até algumas pessoas que não são propriamente do PSD, mas que se reveem no nosso projeto político, têm esperança numa alternativa política do PSD, com vista a analisar a situação que se abre agora nestes dois anos que faltam para cumprir esta legislatura e na aproximação do próximo ato eleitoral, as legislativas de 2023. Não tenho dúvidas que, ultrapassado este ciclo das eleições autárquicas, o PSD se vai concentrar naquele que é o combate maior que terá pela frente, que é o de se constituir como verdadeira alternativa ao Governo do Partido Socialista. Acho que tinha razão quando avisei, há três anos, que a estratégia que o PSD estava a seguir não era a correta. A estratégia de aproximação, quase de submissão àquilo que era a vontade do PS, que era umas vezes fazer acordos políticos com os partidos da Esquerda, e quando não tinha esses, ir de mão estendida ao PSD como tábua de salvação para resolver alguns problemas.

Não viu na noite de domingo uma inversão de ciclo ou algum fruto colhido pelo PSD e pela estratégia que seguiu?

Já falo de domingo. Respondendo à questão das conversações, das auscultações que fiz durante toda esta semana, tenho a certeza que todos os candidatos vão apresentar como ponto nevrálgico da sua estratégia política aquilo que eu disse há três e há dois anos, precisamente que o PSD tem de estar numa posição de alternativa clara, inequívoca, ao socialismo, a este Governo, que é um Governo de estagnação, que não reforma, que não transforma a vida do país.

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Faz parte desse "todos os candidatos"?

Não está nos meus planos assumir uma recandidatura a presidente do PSD, nesta altura.

Mas já decidiu quem vai apoiar?

Não tenciono protagonizar nenhuma candidatura, por várias razões. As principais são que eu tinha um projeto de afirmação política do PSD a quatro anos, quando me apresentei a votos em 2019. E creio que, não tendo acontecido nessa altura, não é que não pudesse acontecer agora, mas envolvi-me em projetos de natureza profissional, pessoal, familiar, que não queria deixar a meio. E também me preocupa uma outra coisa. O PSD não pode transformar-se num partido tribal, em que há o nós e o eles, em que há, digamos, forças, agora chama-se tropas eleitorais deste ou daquele, e que há combates que são de tal maneira violentos na agressividade verbal, hoje agudizada pelo fenómeno das redes sociais, que faz com que criemos uma situação de quase ódio interno.

Quem é a pessoa certa para apaziguar o partido e liderar uma alternativa?

Logo veremos quem se disponibiliza e se há alguém que o faça.

Mas já sabemos que há quem se disponibilize. Há margem para Paulo Rangel recuar, depois da posição em que se colocou?

Durante os próximos dias, haverá um Conselho Nacional que marcará as próximas eleições, ainda nem sabemos quando as eleições são.

Veria com bons olhos e apoiaria uma candidatura de Rangel?

Não vou responder a nenhuma dessas perguntas, neste momento. Se o que está a querer obter de mim é uma informação segundo a qual eu tenho combinado com alguém o que quer que seja sobre as eleições internas do PSD, afirmo categoricamente que não tenho nada combinado. Categoricamente, nada combinado com ninguém. E não afasto nada. Vou aguardar serenamente a marcação das eleições, aguardar que os candidatos se perfilem e depois vou contribuir, quanto mais não seja com ideias, para que o PSD possa sair reforçado de uma vez por todas. E unido e coeso no encalço de uma vitória eleitoral nas legislativas.

Veria com bons olhos que uma série de figuras do partido se juntassem em torno de uma candidatura para unir o partido para 2023? Não contando com Rui Rio, claro.

Se as pessoas pensarem de maneira diferente, não é desejável. É desejável até que se combatam. Se houver correntes de pensamento que não sejam exatamente iguais, se a estratégia for diferente, se a forma de alcançar uma recuperação eleitoral for diferente, é bom que o combate se faça agora, para que o PSD tenha na sua capacidade de decisão todas as alternativas.

Fala em "todos os candidatos", o que significa que há neste momento um caminho para se fazer no PSD de oposição ao atual líder. Teve essa perceção?

Admito que isso possa suceder.

E o inverso? Admite que Rui Rio ainda tenha condições e vontade para liderar o partido?

Acho que sim.

Ele ganhou alguma coisa nestas autárquicas?

Eu bem dizia que vocês iam tentar todas as formas para eu poder ir um bocadinho mais longe naquilo que é o meu pensamento e não vou defraudar a vossa expectativa e o vosso trabalho. Vou até respeitá-lo. Parece-me relativamente natural que haja pelo menos duas candidaturas. Não é obrigatório que seja assim, o dr. Rui Rio não está obrigado a candidatar-se. Candidatar-se-á se sentir que terá ainda espaço de recuperação eleitoral para poder vencer as legislativas. Mas também não desconheço que no PSD há uma vontade grande de poder ter uma alternativa à estratégia seguida até aqui e, portanto, não me admiraria que aparecesse mais uma, ou até mais do que uma, alternativa ao dr. Rui Rio. O que eu acho mais importante é que todas estas candidaturas vão ter como ponto de trave-mestra a formação de uma alternativa política ao PS. Não é possível haver, embora fosse desejável, um bloco central de políticas em eixos fundamentais do que são os principais sistemas públicos. Este Partido Socialista defende o contrário do que nós defendemos para quase tudo.

E também não é possível fazer isto com este PSD?

Não. Estou convencido que mesmo esta liderança hoje vai alinhavar a sua estratégia de maneira diferente do que fez até aqui. E digo isto com base em factos que são públicos e notórios. Por um lado, ficou muito cristalino o posicionamento do primeiro-ministro quando disse que, se alguma vez dependesse do apoio do PSD, o Governo acabava. E o dr. Rui Rio, ao longo dos últimos meses, já tem manifestado a sua conclusão de que, apesar de toda a disponibilidade que ofereceu ao país e ao dr. António Costa para poder ter entendimentos de regime, não tinha condições para o fazer por vontade do Partido Socialista. Aquilo que posso lamentar é que tenha demorado tanto tempo a chegar a essa conclusão. Sinceramente acho que perdemos tempo, como também acho que o país está a perder muito tempo com este Governo. Quando vejo um primeiro-ministro naquele estilo mais fanfarrão a montar todo o seu discurso político acerca de uma bazuca financeira que vem da União Europeia, olho para a cena política portuguesa e concluo que a oposição está muito preguiçosa. Mas é a oposição toda, não estou a falar do PSD, estou a falar da oposição em geral.

Não viu, portanto, que houvesse nos sinais de recuperação da última noite eleitoral alguma inversão de ciclo? Acredita que vitórias como a de Carlos Moedas são pessoais?

Todas as vitórias e todos os resultados emanam em primeira linha de realidades locais. Realidades que têm a ver com dinâmicas locais, com candidaturas locais, com personalidades locais. Essa é, na minha opinião, a primeira motivação para os resultados, mas também não me custa reconhecer que a direção nacional do partido e o seu presidente fizeram o que tinham de fazer. Tiveram um envolvimento significativo. Não direi que fizeram tudo bem, mas no global estiveram bem e os resultados foram bons. Não somos o maior partido de poder local, portanto ainda são insuficientes para um partido como o PSD, mas para quem partia de uma base tão baixa, esta recuperação é boa e tem significado. Se me diz que o PSD deve agora embandeirar em arco e pensar que já está em condições de poder ganhar umas legislativas e criar uma maioria parlamentar para governar Portugal, então tenho de dizer "alto lá. Alto lá PSD".

As contas mostram isso: a Direita toda junta, mesmo com a Iniciativa Liberal e Chega, soma 39,6% e a Esquerda 48,5%.

Não é tempo de embandeirar em arco, não é tempo de estar embriagado nos resultados eleitorais a pensar que o trabalho está feito. Não está. É muito importante ganhar Lisboa? É excelente. O engenheiro Carlos Moedas está de parabéns? Está, não há dúvida.

Mas a vitória foi dele?

A vitória foi dele, foi do PSD, foi do CDS também. Foram os elementos essenciais, não foram os únicos, ainda tivemos mais partidos na coligação. A vitória de Lisboa foi uma grande vitória. No país não vencemos, ficámos em segundo lugar. Mas foi uma boa prestação e um bom resultado face à base em que partimos. Não vale a pena ignorar isso. Vou repetir: o dr. Rui Rio fez um bom trabalho no que toca às autárquicas. Ponto. Está o dr. Rui Rio hoje em condições de poder dizer que é uma alternativa sólida consistente para ganhar as eleições ao Partido Socialista? Não. Se pode vir a estar, depende dele. Depende do que ele oferecer como proposta ao partido. Há mais pessoas capazes de poder apresentar projetos que façam mobilizar o PSD? Há. Devem aparecer? Devem. E o país precisa disso, porque precisa de discutir tanta coisa. O país não se pode circunscrever ao dinheiro que vem e à forma como vai ser distribuído.

E não vê esse discurso na atual liderança do PSD?

Não vejo isto na oposição em Portugal. Estou muito expectante e esperançado que rapidamente haja em Portugal protagonistas políticos a dizer isto. Eu próprio não me vou eximir de o fazer no espaço público, independentemente de não ser candidato. Fiz este período de silêncio amadurecido, pensado, muito refletido. Muitas vezes custou-me não dizer coisas, não opinar sobre assuntos pertinentes. Mas entendi que era preciso desmontar e erradicar do PSD um sentimento de ódio interno, de conflitualidade permanente. Entendi que tinha uma responsabilidade e cumpri. Tive um comportamento que permitiu ao PSD ter paz, coesão e possibilidade de enfrentar estas eleições de uma maneira fortalecida. v

Olhando para a soma da Direita e da Esquerda, o Chega acabará por ser um partido a considerar pelo PSD?

A minha posição é muito simples quanto a esse assunto: nós nunca vamos saber, por antecipação, qual é que vai ser o quadro parlamentar que sai de umas eleições legislativas. E mal vai o PSD se começar a teorizar e especular sobre outro quadro que não seja o de conseguir uma maioria parlamentar para governar. O objetivo do PSD em eleições legislativas é ganhar uma maioria absoluta de deputados. Eu sei que as pessoas vão dizer assim: "Este tipo deve ser doido. O PSD tem 25, 26 ou 27% nas eleições e ele quer já uma maioria absoluta. Que ambição, que coisa tão irrealizável!" Em primeiro lugar, não é, não é. Agora, eu também não sou maluco e tenho de gerir aquilo que são as probabilidades. O grau de probabilidade hoje de o PSD ter uma maioria é baixo, com certeza, mas nós sabemos isso.

A Direita está fragmentada?

Se essa probabilidade é baixa, obviamente poderão começar a vislumbrar-se no quadro parlamentar opções de constituição dessa maioria, mas não vale a pena estarmos a dissertar muito sobre isso. O que é preciso é que todos à Direita do PS ganhem mais deputados. Eu sou daqueles que desejam profundamente que o CDS se possa reabilitar nos próximos anos. Tenho a convicção que quanto mais forte está o CDS, mais forte está o PSD. Quanto mais forte está o PSD, mais forte está o CDS. Desejo que no nosso espaço político todas as forças possam crescer. E depois nós faremos a maioria que for, digamos, plausível.

Não rejeita à partida, então, precisar de acordos, nem que sejam pontuais, com o Chega?

Neste momento, acho que o PSD não deve estar a teorizar sobre isso. Não defendo que possa haver uma coligação de governo com o Chega nas atuais circunstâncias. Acho inacreditável como é que o líder do Chega se dá ao desplante de exigir nos jornais três ou quatro ministérios, e até diz já quais são, num próximo Governo. Ele tem um deputado! Um deputado não serve para nada. Um deputado hoje serve se o Parlamento tiver 115-115.

O que espera de Marcelo Rebelo de Sousa neste cenário pós-autárquicas em que temos um PS, aparentemente, em perda e um PSD em alta? Incidentes como o do Estado-Maior da Armada, esta semana, já demonstram um posicionamento diferente do presidente da República?

Vamos começar pelo fim: este incidente é uma vergonha. É uma vergonha a vários níveis, uma vergonha do ponto de vista protocolar, do ponto de vista formal, do ponto de vista da gestão da informação. Não acho normal que um vice-almirante que prestou, de facto, um serviço inestimável ao país tenha de receber como prémio, no dia em que sai da prestação desse serviço, ser o chefe do ramo da Armada. Sinceramente, acho que ele não deve ser instrumentalizado politicamente. Foi tão proficiente, foi tão responsável por tranquilizar a nossa população, por fazer as pessoas acreditar que valia a pena serem vacinadas, fez todo esse trabalho de uma forma pedagógica, de uma forma competente, mas não há que tirar agora proveito político disso.

Houve uma instrumentalização por parte do Governo?

Cheira a isso. Se não é, parece. Eu não estou a dizer que estou contra a nomeação dele, ou a propositura dele. O que me parece desajustado do ponto de vista dos princípios é que isso ocorra no dia em que ele saiu da tarefa que tinha antes, porque havia uma pessoa que estava a exercer o mandato. As coisas devem ter um fluxo normal. Parece que agora o Partido Socialista e o doutor António Costa querem, no fundo, capturar a popularidade do vice-almirante Gouveia e Melo. Ele não merece isso.

Foi adequado o puxão de orelhas de Marcelo ao Governo?

Acho que sim.

Considera que está em causa o regular funcionamento das instituições?

Não, isso também é um exagero. Comecei pelo fim da pergunta, mas falta a primeira parte.

As relações entre Belém e São Bento.

Tenho uma certeza: o presidente da República tem de exercer as suas competências, mas o PSD não pode nunca estar à espera do presidente da República para crescer eleitoralmente, para vencer eleições, e para afirmar a sua alternativa, independentemente de concordar mais com o presidente da República, e nós temos uma afinidade grande com ele. Foi um ex-presidente do PSD, mas não é ele que nos vai levar ao Governo. Que nenhum candidato a líder pense isso porque, se pensar, não tem o meu voto. Um candidato a líder que queira alicerçar o seu projeto político no apoio do presidente da República, para mim está condenado ao insucesso e, portanto, eu não voto nele.

Ouça a entrevista completa este domingo ao meio-dia na TSF

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