Lisboa

Desfile de Ventura: o gesto provocatório, Maria Vieira e um dirigente do PSD

Desfile de Ventura: o gesto provocatório, Maria Vieira e um dirigente do PSD

O protesto "Portugal não é racista", convocado pelo Chega, arrancou com seis vezes menos participantes do que o esperado, mas o grupo foi-se compondo, chegando ao Terreiro do Paço com cerca de 1200 pessoas. A atriz Maria Vieira marchou ao lado de Ventura e foi várias vezes aplaudida. O líder populista acabou a invocar Sá Carneiro e Deus, após ter feito um gesto semelhante ao da saudação nazi durante o desfile.

A manifestação de Direita convocada pelo partido Chega, em reação aos protestos antirracistas, arrancou na tarde deste sábado no Marquês de Pombal, Lisboa, em direção ao Terreiro do Paço, com um sexto dos participantes esperados pela organização - 250 dos cerca de 1000 a 1500 esperados.

Mas durante o trajeto, na Avenida da Liberdade, onde André Ventura fez um gesto semelhante à saudação nazi, tendo sido logo repreendido por membros da organização, o número subiu para mais de mil.

O desfile foi acompanhado por um forte aparato policial, tanto na Avenida da Liberdade como nas laterais: foram mobilizados para o protesto cerca de 150 agentes da PSP, revelou, ao JN, o porta-voz do Comando Metropolitano de Lisboa (Cometlis) da PSP, comissário Artur Serafim.

No começo, pelas 14.30 horas, o líder do Chega, André Ventura, sinalizou o facto de esta manifestação ser "a primeira de Direita em 40 anos". "Habituem-se", atirou o deputado, que desfilou com um megafone, junto à atriz Maria Vieira, apoiante do partido.

Um pouco mais ao lado de Ventura, mas também na cabeça do desfile, destacou-se uma bandeira do PSD, empunhada pelo presidente da Secção do PSD de Macau, Vitório Cardoso. "Estou aqui para lembrar a 'miscigenação perfeita' produzida no Oriente pelos portugueses", apontou, ao JN, o dirigente social-democrata.

A meio da Avenida da Liberdade um episódio insólito: Ventura, que passou o tempo a acenar com o braço direito, pôs a mão mais em riste. Vários elementos do Chega apressaram-se a chamar a atenção do líder do Chega. "É isto que vai aparecer amanhã nos jornais", atirou um dos elementos da organização para o grupo onde estava o repórter fotográfico do JN.

Contramanifestações

"Político corrupto é político preso", atirou Ventura, já pelas 15.45 horas, no Terreiro do Paço, onde nem todos os manifestantes acabaram por se concentrar.

Num discurso sem grande profundidade e com muitos chavões, o líder do Chega acusou aqueles que "acharam que não havia coragem" para avançar com esta manifestação.

"Desde Sá Carneiro que nunca mais tivemos um líder que defendesse os portugueses", apontou. Por esse ideal, que não detalhou, Ventura disse que aqueles que o acompanham estão "dispostos a morrer".

Disse que os 'chegas' sabem "ser diferentes dos outros": "não aceitamos que digam que somos racistas". "Não somos como o PS. Também não somos como o BE - mas esses [bloquistas] estão a desaparecer"", disse, garantindo que, de agora em diante, "sempre que a Esquerda sair à rua", o Chega sai logo em seguida "à rua a dobrar". Antes do hino, agradecimentos para Deus e para Maria Vieira.

A "Brigitte Bardot" da Direita

"É claro que ela é a nossa Brigitte Bardot", respondeu, ao JN, cá em baixo, junto ao palco, Joaquim Macedo, apoiante recente do Chega, para quem a atriz sofre na pele o que atriz francesa passou, por ser apoiante da extrema-Direita e por apontar o dedo à comunidade muçulmana.

Ao JN, a atriz lamentou que "nem todos percebam que André Ventura é um homem íntegro, honesto e bom chefe de família".

"A Direita é gente de bem, ao contrário do que temos assistido à Esquerda. Infelizmente, no meu meio, desde que me assumi como uma mulher de Direita, tenho sido marginalizada por aqueles que batem com a mão no peito e dizem que são tolerantes", admitiu a atriz, que durante anos se destacou em comédias, frisando que "não tem ambições políticas.

Envergando várias faixas com apenas duas ou três mensagens, como "Portugal não é racista" ou "As polícias merecem respeito", o desfile não registou qualquer incidente, à exceção de duas situações que a PSP travou.

Bandeira gay e saudação nazi

Segundo o comissário Artur Serafim da PSP, esses dois casos foram sinalizados por "comportamentos obscenos" e "comportamentos agressivos".

Em causa esteve um jovem que, ainda no Marques de Pombal, se colocou no meio da concentração e desfraldou a bandeira arco-íris, símbolo do orgulho LGBTIQ. Com uns fones nos ouvidos, permaneceu impávido com a bandeira no ar, imune aos comentários. "Nem percebi o que estavam a dizer", admitiu, ao JN, João Pedro, o jovem.

Depois, já junto à estação ferroviária do Rossio, um transeunte fez um gesto da saudação nazi. Mas como era ali que a PSP tinha um dos vários reforços, o homem acabou por ser afastado em direção ao edifício da estação.

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