1934 - 2021

Morreu José Eduardo Pinto da Costa, irmão do presidente portista

Morreu José Eduardo Pinto da Costa, irmão do presidente portista

Morreu José Eduardo Pinto da Costa, o irmão mais velho do presidente do F. C. Porto, aos 87 anos. Referência da Medicina Legal, tocou violino e adorava teatro.

O médico-legista José Eduardo Lima Pinto da Costa morreu esta quarta-feira aos 87 anos. Encontrava-se muito doente. Era o irmão mais velho do presidente do F. C. Porto, Jorge Nuno Pinto da Costa, que já tinha perdido a irmã Maria Alice, no início de novembro.

Primeiro de seis filhos, José Eduardo Lima Pinto da Costa nasceu no Porto, na freguesia de Cedofeita, a 3 de abril de 1934. Conhecido em Portugal e no estrangeiro por uma vida inteira dedicada à Medicina Legal, era muito mais do que um especialista na matéria: era também um especialista em viver bem e de forma positiva, um homem com um sentido de humor extremamente refinado e com um gosto especial pelo teatro.

Ler e escrever foram as formas preferidas de passar o tempo livre. Ainda no ano passado, quando Portugal entrava em estado de emergência devido à covid-19, em março, José Eduardo foi entrevistado pelo "Expresso" e, quando lhe perguntaram que conselho daria às pessoas em confinamento, aconselhou-as a ler.

Mas também disse uma vez que, "se não fizesse nada, ia todos os dias ao teatro", uma paixão que nasceu na infância e que recordou aos microfones da TSF, também em 2020. José Eduardo tinha 9 anos quando começou a frequentar regularmente o S. João Cine, atual Teatro Nacional de S. João. Era propriedade de um bisavô e toda a família tinha à disposição o camarote n.º 8, para ver teatro e cinema, e uma frisa, para assistir a concertos.

Chegou a representar na adolescência e até dizia que o teatro devia ser uma disciplina obrigatória: "A capacidade de comunicar aprende-se muito no teatro". Também teve os seus 15 minutos de fama na música. Ou talvez não. "Tocava - e muito mal - violino, diga-se de passagem. Cheguei a dar um concerto que foi o primeiro e único, porque as pessoas falavam tanto que eu fiquei frustrado e disse: para isso, não", contou à rádio.

Também se dedicou ao associativismo desportivo e ao futebol, até como praticante, pois jogou durante dois anos no Futebol Clube de Infesta. Fez parte do corpo clínico do F. C. Porto e presidiu à Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Hóquei.

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Uma boa parte da vida foi dedicada ao ensino e, claro, à Medicina Legal, área que o levou a pertencer a dezenas de sociedades científicas, nacionais e internacionais, e a escrever livros e artigos, publicados em diversos órgãos de comunicação social. Entre eles, o "Jornal de Notícias", em particular entre 1996 e 1997.

José Eduardo Pinto da Costa entrou na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em 1953 e concluiu a licenciatura em 1960. No ano seguinte, já era professor assistente de Medicina Legal e Toxicologia Forense, função que desempenhou até 1974. Nesse entretanto, fez uma pós-graduação e acabou o doutoramento em 1973. Ainda em termos académicos, alcançou o ponto mais alto da carreira - o de professor catedrático - em 1996. Exerceu também os cargos de subdiretor e diretor do Instituto de Medicina Legal do Porto.

A ligação ao meio académico prosseguiu com a orientação de múltiplas teses de doutoramento e com a criação, em 1999, do Mestrado de Medicina Legal do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, instituição em que também foi docente. Quando a pandemia de covid-19 obrigou o país a parar e a confinar pela primeira vez, em março do ano passado, continuou a dar aulas a mais de 200 alunos da Universidade Portucalense, via videoconferência, sem nunca se atrapalhar com as tecnologias.

Aliás, já em 2017, quando foi entrevistado pelo Porto Canal, admitia que os telemóveis dominavam a sua vida. E logo exibiu o relógio de pulso, através do qual se mantinha a par do batimento cardíaco e sabia o número de passos que dava em cada dia. Sim, também gostava de caminhar, havia nele um "prazer de andar na rua". Uma das formas que encontrou para andar, durante o confinamento, foi ir ao supermercado todos os dias.

"Sem humor e sem fantasia não é possível viver", disse à plateia que o ouvia numa conferência realizada, em fevereiro de 2020, no Hospital Padre Américo, em Penafiel. O tema era "A arte de não envelhecer" e lá deixou o segredo da sua longevidade: "Está provado que as pessoas que têm um sentido positivo da vida vivem, em média, mais sete anos e meio do que os outros". Isso e fazer uma alimentação equilibrada, pois, àqueles que lhe diziam que queriam chegar à sua idade com o mesmo estado físico e psicológico, respondia que "não é a comer hambúrgueres nem a beber Coca-Cola".

O renomado especialista tinha uma imagem que todos facilmente reconheciam e que ele próprio dizia que fazia parte da sua personalidade: umas longas barbas que o acompanharam durante mais de 50 anos e que contrastavam com a ausência de cabelo. Foram motivo de insónia, uma vez. Na entrevista ao Porto Canal, contou como teve esse "conflito". É que alguém lhe perguntou se dormia com as barbas por dentro dos lençóis ou por fora dos lençóis e ele, chegada a hora de dormir, debateu-se com esse dilema e nunca mais adormecia.

Também parte da sua personalidade foi o F. C. Porto. Mas seria de forma contida. Além de não ir "apanhar pneumonias no Dragão", acompanhava os jogos com o seu jeito muito peculiar: "Quero que o Porto jogue mal e ganhe jogos". Talvez por isso, não discutia futebol com o irmão Jorge Nuno.

José Eduardo fez cerca de 30 mil autópsias. Mas recusou um caso. Era uma antiga aluna, que tinha morrido num acidente. "Nem a vi, sequer. Quis ficar com a imagem dela consoante a tinha em vida. Nunca a vi morta", contou ao jornalista Júlio Magalhães.

A favor da eutanásia, o médico-legista tinha uma forma de falar que tocava a todos. Direto e verdadeiro, fazendo simples as coisas complicadas, assim discursava no país e fora de portas. Dizia que "o arrependimento é a coisa pior que pode haver na vida", porque demonstra uma má escolha. Fechamos este texto com uma outra citação, que diz tudo: "Privilegio muito as pessoas que fazem as coisas com o brilho nos olhos".

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