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Neonazi italiano discursa em quartel de bombeiros português

Neonazi italiano discursa em quartel de bombeiros português

O italiano Francesco Saverio Fontana, conhecido radical de extrema-direita e envolvido em organizações neonazis paramilitares ou que apregoam a pureza racial, vem dar uma conferência este sábado às instalações dos Bombeiros Voluntários de Paço de Arcos, Oeiras.

O presidente da direção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Paço de Arcos, Tiago Fernandes, manifestou total surpresa quando foi confrontado pelo JN com os ideais do orador que vai receber nas suas instalações. Frisou que desconhecia por completo que o orador é um neonazi.

O espaço, revelou, foi arrendado por 150 euros a Salvador Costa, em nome da Associação Núcleo de Estudos Oliveira Salazar, da qual faz parte. Salvador Costa é o autor da petição contra a vinda para Portugal dos refugiados da Síria e que, ainda nesta segunda-feira, participou no programa da RTP "Prós e contras".

O vice-presidente do Núcleo de Estudos Oliveira Salazar, José Magalhães, assumiu ao JN que a escolha e o arrendamento do espaço partiu da sua associação e revelou as razões pelas quais os seus membros estarão presentes: "Porque temos interesse em perceber os novos movimentos nacionalistas na Europa". Recusou, todavia, admitir que são os únicos organizadores da iniciativa, limitando-se a dizer que se ocupa da parte da logística e que a conferência é planeada por "um grupo de portugueses nacionalistas com alguns contactos lá fora".

Um deles é um homem que, ao telefone, se identificou por Henriques Gomes e que assumiu fazer parte da organização "constituída por um grupo de cidadãos". Desmentiu fazer parte de qualquer associação. Sobre as ideologias de Francesco Saverio Fontana, Henriques Gomes considerou: "É-nos indiferente que possam beliscar a sensibilidade de algumas pessoas". "Para nós", acrescentou, "não faz sentido julgar as ideias do senhor Francesco porque acreditamos na tolerância e na liberdade de expressão".

Francesco Saverio Fontana é sobejamente conhecido pela sua ligação a movimentos neofascistas italianos como a Avanguardia Nazionale ou o Casapound. Em 2014, esteve ligado ao Pravy Sektor (Sector Direito), um partido ultranacionalista da extrema direita ucraniana e integrou o Azov, um batalhão neonazi que lutou contra os separatistas no Leste da Ucrânia. Supostamente é sobre essa experiência em cenário de guerra que Francesco Saverio Fontana vem falar a Paço de Arcos.

O que poucos saberão é que atualmente o italiano é um assumido membro ativo da Misanthropic Division (Divisão Misantrópica), uma organização paramilitar extremista e nacional-socialista que surgiu no final de 2013. A Misanthropic Division (MD) amealha ultranacionalistas e neonazis de vários países da Europa, incluindo uma célula em Portugal. Francesco Saverio Fontana chama-lhe "uma irmandade branca".

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O site da MD, que anuncia a conferência deste sábado, não faz segredo das ideologias que movem os seus seguidores: há citações do Mein Kampf de Adolf Hitler e abundantes referências sobre "pureza racial". Dizem-se contra a democracia porque "promove o multiculturalismo" e alegam que "a mistura de raças são o presságio para destruir o que naturalmente foi criado".

Como tal, defendem aquilo a que designam um "racialismo positivo". Com o argumento de que "defender a nossa cultura é natural", lutam contra "a doença democrática que promove a mistura de raças ou outro comportamento anormal".

Entre várias iniciativas que consideram urgentes, assinale-se a criação de uma política que assegure o património genético de grupos humanos. Prezam valores como "a honra" e "a busca da perfeição" e, em suma, assumem que o objectivo é "preservar, proteger e garantir a pureza de nossa raça, da nossa família, da cultura e comunidades".

Esta Divisão Misantrópica tem apoiantes em Portugal. Um deles é João Martins, um nacionalista que esteve ligado ao Movimento de Oposição Nacional e que se envolveu em confrontos com manifestantes da esquerda durante a "Marcha da Indignação" que decorreu em Lisboa em janeiro de 2012. As fotos que João Martins publica nas redes sociais não escondem as suas simpatias pela MD.

João Martins interage com outros adeptos da MD sobretudo através da VK, uma rede social bastante popular nos países de leste. No domingo passado, este nacionalista português foi um dos que esteve em evidência na manifestação contra a vinda dos refugiados que se realizou em frente à Assembleia da República, em Lisboa, tendo sido um dos mais aplaudidos durante os discursos.

João Martins é um dos poucos portugueses que Francesco Saverio Fontana seleccionou para o seu grupo de amigos no facebook. Um outro é Vítor Luís Rodrigues (à esquerda na foto em baixo), dirigente do Movimento de Oposição Nacional, e que foi o primeiro a anunciar a vinda do italiano a Portugal. Num post publicado a 18 de agosto na sua página do Facebook, Vítor Luís Rodrigues escreveu: "Com muito prazer, e em nome do meu camarada João Martins, anuncio a realização de uma conferência, em Lisboa, com Francesco Saverio, um veterano italiano que participou na revolução ucraniana".

A 8 de setembro, num artigo que assinou para o jornal O Diabo, Vítor Luís Rodrigues louvava o facto de o italiano participar atualmente "numa campanha de sensibilização e mobilização para o combate por uma nova Europa também na internet e nas redes sociais".

Ora, o twitter do italiano, partilha textos com frases como "Não há bons judeus mas apenas parasitas que precisam ser neutralizados" ou imagens de Hitler ao lado de mensagens como "nós continuamos a lutar".

Os grupos de discussão que o italiano tem como preferências também deixam poucas dúvidas sobre as ideologias a que presta o seu tempo: organizações ultranacionalistas, bandos de supremacistas brancos, seitas contra os refugiados ou congregações saudosistas das Waffen-SS. O seu mural está reservado apenas para os amigos mas é possível verificar que Francesco Fontana anda activo: na terça-feira divulgou propaganda da MD numa página que convoca um protesto contra os refugiados em Inglaterra.

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