Lisboa

"O dia a dia de uma trans não é fácil: é de dor e sou ridicularizada, questionada e humilhada"

"O dia a dia de uma trans não é fácil: é de dor e sou ridicularizada, questionada e humilhada"

Aisha Noir, de 27 anos, dá corpo e voz às dificuldades da comunidade trans em Portugal. No Dia Internacional da Memória Trans, centenas de pessoas reuniram-se no Largo do Intendente, em Lisboa, para recordarem os que foram mortos por violência transfóbica. Dizem que ainda há medo de andar na rua e reclamam acesso a mais e melhores cuidados de saúde.

Foi com satisfação que Sasha, de 36 anos, constatou, este sábado à tarde, que no local definido para o início da marcha, o Largo do Intendente, já se encontravam cerca de 60 pessoas: "Já é um sucesso", rematou. É primeira "marcha especificamente para assuntos trans", continuou o ativista, um dos organizadores da manifestação. A discriminação que sentiu por parte da família e daqueles que lhe eram mais próximos foi o motivo o que levou a sair de França, o seu país de origem, em 2014. "Estava a passar pela transição e foi um momento de isolamento. Eu emigrei, tal como muitas pessoas trans, para começar uma nova vida.", prosseguiu Sasha.

Para além da falta de apoio familiar, a comunidade trans fala em abandono por parte do Estado. "Temos dificuldade no acesso a habitação e ao trabalho. Somos precarizados e marginalizados. Os migrantes, as mulheres e, principalmente, as trabalhadoras do sexo são as mais vulneráveis", referiu Sasha. As dificuldades e o sofrimento pelo qual passam as pessoas trans levam em muitos casos ao suicídio. Apesar da lei de 2018 do Direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à proteção das características sexuais de cada pessoa, "esta ainda não está a ser aplicada". Há mudanças podiam ser feitas junto da sociedade, como por exemplo nas escolas, defende. "Temos parar com a mentira de que só existe um mundo binário. De mulheres de um lado e homens do outro. É uma mentira que nos apaga e nos mata", conclui.

PUB

Antes do arranque da marcha já se tinham juntado centenas de pessoas. "Família" foi uma palavra proferida por muitos elementos da comunidade trans. Esse sentimento refletiu-se num ambiente de convívio. Muitos jovens pertencentes à comunidade LGBT estavam presentes, assim como pessoas de todas as idades que apenas eram apoiantes por estarem sensibilizadas com a causa.

O sentimento de medo, mesmo numa ação legal de manifestação acompanhada por agentes da PSP, levou a que a organização da manifestação tivesse os seus próprios seguranças. Cerca de 10 pessoas não pertencentes à comunidade trans acompanharam os manifestantes desde o início da marcha até ao final da vigília.

Agressão transfóbica no Bairro Alto

Aisha Noir sabe o que é sentir medo. No passado sábado, Aisha, de 27 anos, e o seu namorado Lúcio Sousa, de 28 anos foram agredidos à porta de um bar no Bairro Alto. O olho negro de Aisha ainda vincado no rosto é a prova da violência das agressões. "O dia a dia de uma trans aqui não é fácil: é de dor e sou ridicularizada, questionada, humilhada", lamentou. Foi do Brasil para a Holanda e está há um ano em Portugal. Tinha noção de que existia transfobia em Portugal, mas nunca pensou "que fosse assim".

À entrada do bar notaram que "o segurança estava incomodado" com a sua presença. Segundo Aisha, essa hostilidade aconteceu, porque eram "dois negros e uma travesti trans num ambiente em que não existem pessoas assim". Apesar das ameaças, Aisha e o namorado decidiram entrar no estabelecimento e até informaram os responsáveis do local sobre o sucedido. Ninguém teve reação e, quando saíram do bar, o segurança agrediu Lúcio. A ele "juntaram-se várias pessoas para nos bater. Eu só sentia os socos e os pontapés. Gritava por ajuda e ninguém fazia nada", relata Aisha.

Quando se dirigiram à esquadra de polícia mais próxima, disseram-lhes que o passaporte não é suficiente para fazer a denúncia, pois era necessária uma "manifestação de interesse". O casal ficou indignado. Ambos são trabalhadores: ela é gerente de um bar e ele é professor de inglês. No hospital, aconselharam-nos a ir a outra esquadra onde lhes informaram que estavam sem sistema. "Fiquei sem saber se era verdade", concluiu Aisha.

Lúcio, corroborando as palavras da namorada, conta que têm "sofrido uma serie de ataques" . Nota-se pelos "olhares nos lugares onde vamos que as pessoas ficam incomodadas".

Problemas no acesso a cuidados de saúde

Na Praça do Município, estava montado um pequeno palco, em que foram partilhados diversos testemunhos intercalados com momentos musicais de artistas pertencentes à comunidade trans. Alexandre Sacramento, de 20 anos, foi um dos jovens que discursou. Foi com 16 anos que iniciou a sua transição. A "transição", ou seja, a mudança de sexo é uma transformação significativa e fundamental na vida de uma pessoa trans, mas nem todos a conseguem realizar. "Cheguei a considerar o suicídio", pois, em Portugal, "ou tens dinheiro ou ficas como estás. O problema é perceber até onde aguentamos", afirmou o jovem. Para se fazer o acompanhamento público, existem "poucos hospitais", o que dificulta a transição das pessoas que moram no sul do país ou nas ilhas. A este problema, junta-se a morosidade do atendimento.

Mas Alexandre considera-se um "caso raro". Os seus pais foram compreensivos com a sua situação e financiaram a ida a um hospital privado para realizar a transição. Cuidados básicos de saúde, como o acesso a consultas de ginecologia também são difíceis para a comunidade trans.

Guadalupe Amaro, de 26 anos, refere que "a linguagem tem de ser mais cientificamente correta, porque assim será mais inclusiva". A jovem apresentou vários exemplos. "Um homem trans passa a ser reconhecido legalmente como homem e, automaticamente, o sistema exclui-o dos rastreios ao cancro do colo do útero, por exemplo. Assim, discriminam-se as pessoas pelo reconhecimento legal do seu género, enquanto devia estar a discriminar pelo órgão que é relevante para o procedimento médico em causa".

Durante a vigília, houve uma distribuição de velas e um minuto de silêncio por todas as vítimas. Entre os testemunhos emocionados, um dos casos recordados foi o de Angelita Correia, mulher trans encontrada morta em Matosinhos.

Reforço na proteção da comunidade trans

O Ministério da Administração Interna anunciou, este sábado em comunicado, que estabeleceu um protocolo de cooperação entre a comissão de Cidadania e Igualdade de Género, a Inspeção Geral da Administração Interna, a Secretaria Geral do Ministério da Administração Interna, a Guarda Nacional Republicana, a Polícia de Segurança Pública e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras para "ações de capacitação e formação de profissionais-chave para um melhor atendimento, apoio e proteção das pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersexo (LGBTI)", para a "prevenção da violência homofóbica e transfóbica e, também, para a melhoria na atuação e investigação em situações de crime contra pessoas LGBTI".

Esta iniciativa enquadra-se no primeiro plano autónomo de combate à discriminação em razão da orientação sexual, identidade e expressão de género e características sexuais, da Estratégia Nacional Portugal + Igual.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG