Jorge Sampaio

O humanista do Mundo para lá do Presidente

O humanista do Mundo para lá do Presidente

Última cruzada foi ajudar a salvar jovens afegãs. Quando ganhou o Prémio Mandela fez uma declaração de amor aos portugueses.

Um dia antes de ser internado no Hospital de Santa Cruz, em Lisboa, a 27 de agosto de 2021, Jorge Sampaio estava preocupado e intranquilo. Não consigo próprio, mas com as imagens que continuava a ver do Afeganistão e com a nossa consciência coletiva - que brada pela formulação de um novo imperativo de ação. Talvez se tenha lembrado daquela frase de Pierre Mendès France, o estadista francês que descendeu de uma família judaico-portuguesa sefardita que há muitos séculos se viu empurrada de Portugal após a terrível "Matança da Páscoa de 1506". Pierre Mendès dizia, justamente, que as palavras de nada valem sem a ideia, como a ação pouco ou nada anda se não tiver atrás a convicção.

No dia 26 escreveu um artigo dadivoso no "Público" em que classificou a solidariedade como um imperativo. Disse: "Nunca seria demais recordar que a solidariedade não é facultativa, mas um dever que resulta do artigo 1.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos - Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade". E, vendo, como via sempre, muito para lá de si mesmo, ansiou: "Façamos uma vez mais prova de que sabemos estar à altura das nossas responsabilidades".

A sua responsabilidade era esta: anunciou que a Plataforma Global para os Estudantes Sírios, que fundou em 2013, "e a que tenho a honra e o gosto de presidir", está a preparar um reforço do programa de emergência de bolsas de estudos e oportunidades académicas para ajudar a salvar jovens mulheres afegãs.

Seguir em frente no encalço dos sonhos

A Plataforma alargou, e muito, o seu âmbito de atuação para lá da crise síria e hoje trabalha na criação de um Mecanismo de Resposta Rápida para o Ensino Superior nas Emergências.

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Agudo, como sempre, sobre a sua ética, quis que o seu exemplo transbordasse e lançou "um apelo a todos parceiros da Plataforma - entidades oficiais, instituições de ensino superior, centros de estudos e investigação, empresas, fundações, outras organizações e particulares - para que colaborem sempre mais connosco, e disponibilizem apoios, oportunidades académicas e profissionais, estágios e vagas para estes jovens oriundos de sociedades atingidas por conflitos e crises humanitárias que carecem de proteção e que só buscam poder seguir em frente no encalço dos seus sonhos".

Não fez só o apelo, deu provas: "A experiência que reunimos nos últimos sete anos com a integração de estudantes sírios tem mostrado o quanto esta tem sido duplamente benéfica, não só para os estudantes, que assim encontram um horizonte de futuro para as suas vidas, como para as comunidades de acolhimento que desta forma se renovam, dinamizam e reforçam o seu potencial criativo, produtivo e de inovação".

A recognição global chegou: em 2019 recebe o prémio humanitário McCall-Pierpaoli, atribuído através da Plataforma Global de Apoio aos Estudantes Sírios.

O diálogo é a melhor das armas

Após a Presidência da República, Jorge Sampaio, que se confirma uma humanista, isto é, um defendente das doutrinas de pendor racionalista que definem o Homem como valor supremo e central da existência, foi nomeado em 2006 pelo então secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, Enviado Especial para a Luta contra a Tuberculose. Aí, aumentou a visibilidade internacional da escalada da doença e o seu impacto no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio.

No ano seguinte, e até 2013, já o diplomata sul-coreano Ban Ki-moon presidia à ONU, Sampaio foi também Alto Representante da organização para a Aliança das Civilizações. "O convite sensibilizou-se pessoalmente, mas corresponde também ao reconhecimento do papel histórico que Portugal tem vindo a assumir", disse em abril de 2007.

O seu desígnio era ser uma ponte, um reforço do "diálogo entre os países ocidentais e o mundo islâmico", outorgando, como disse, "especial atenção à clivagem entre as sociedades ditas ocidentais e as muçulmanas" e dando resposta "ao aumento da intolerância, da xenofobia e do racismo nos países ocidentais". A sua retribuição era a própria longanimidade: só desejava pôr a devida experiência "ao serviço do interesse público e das causas"; e crê que as palavras têm o poder de um contrafogo: "à tese tão em moda do choque civilizacional", contrapunha sempre a hipótese do "diálogo de civilizações, de culturas e de religiões".

"O melhor que o nosso país tem são as suas pessoas"

Em 2015, o reconhecimento de Jorge Sampaio atinge um patamar ecuménico: é a primeira personalidade mundial a receber o Prémio Nelson Mandela das Nações Unidas. O galardão, que será atribuído a cada cinco anos, reverencia "os feitos e as contribuições excecionais" de "pessoas que dedicam as suas vidas ao serviço da Humanidade". A honra foi repartida com uma médica benemerente da Namíbia, Helena Ndume, que ajudou namibianos pobres a obterem cirurgias oculares gratuitas, salvando mais de 30 mil pessoas da cegueira perpétua.

Ao discursar na ONU, no dia em que o Nobel sul-africano nasceu, 18 de julho, Sampaio, que apontara vários males e negruras do mundo, emociona-se generosamente e devota o prémio aos próprios portugueses. "Perdoem-me por esta evocação mais pessoal e nacional, mas devo dedicar esta aclamação ao meu país e aos meus caros concidadãos", disse no seu discurso de 15 minutos em inglês. "São tolerantes, têm a mente aberta e são cooperantes. Sempre repeti incessantemente que o melhor que o nosso país tem são as suas pessoas, homens e mulheres de esperança, perdão e resistência"

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