Lisboa

"Rapariga não te cales": gritos contra a violência e em defesa das mulheres

"Rapariga não te cales": gritos contra a violência e em defesa das mulheres

Centenas de pessoas participaram esta quinta-feira, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, numa marcha em Lisboa. "Machismo mata", "estar viva não devia ser uma conquista" e "rapariga não te cales" foram algumas das mensagens nos cartazes e faixas dos manifestantes, que lembram que há muita violência além da agressão física.

Dália Correia, de 57 anos, decidiu que hoje era o dia de romper o "silêncio de anos" em que foi vítima de vários tipos de violência. "Hoje foi o dia em que me enchi de coragem e ignorei as pessoas que me dizem "não vás, não faças, não digas"". A violência que sofreu levou-a a "ficar psicologicamente afetada a nível familiar e laboral". No escritório de advogados onde trabalhou revela ter sido discriminada até por mulheres e em casa passou por violência doméstica e sexual.

Marisa Bastos, de 48 anos, acompanhou há mais de 20 anos uma amiga a fazer queixa de violência doméstica às autoridades. Mas em "vez de registarem o caso, não a incentivaram a levá-lo em diante", contou, contribuindo para "a deixar amedrontada e sem coragem de denunciar". Na marcha desta quinta-feira em Lisboa, Marisa Bastos alertou para a necessidade de "sensibilizar as pessoas porque a violência é um crime público. As pessoas têm de estar atentas para ver se existe um vizinho que esteja a passar por uma situação destas e denunciar".

Patrícia Vassalo, uma das representantes da organização do evento, que desceu do Largo do Intendente até ao Rossio, disse que, apesar do frio e da chuva, "o balanço é muito positivo. Embora tenhamos estado bastante tempo em casa, as pessoas têm sensibilidade para perceber o que se está a passar".

As várias organizações presentes na marcha unem-se no combate a "todo o tipo de violência sobre todo o tipo de mulheres. Temos de mudar a mentalidade conservadora de que a violência sobre a mulher ocorre quando o homem lhe bate. Há muito mais para além da questão física", prosseguiu Patrícia Vassalo. "O assédio, as microagressões, os piropos" são formas de violência que passam despercebidas, considera.

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Outro dos problemas abordados pelos manifestantes foi a violência obstétrica. Andreia Guerreiro, de 31 anos, levava consigo um ramo de rosas brancas que distribuía pelos manifestantes, sensibilizando-os para essa realidade. A manifestante pertence ao movimento "Violência Obstétrica Pt" criado este mês "em reação ao parecer da Ordem dos Médicos que diz que a violência obstétrica não existe", disse.

"Roses Against Violence" é o nome do movimento internacional de sensibilização para a violência obstétrica que "leva mulheres por todo mundo a depositar uma rosa no hospital onde sofreram violência obstétrica". Em Portugal, o movimento não tem expressão, mas "hoje no Porto houve mulheres que foram depositar rosas à porta do hospital onde sofreram" essa violência, contou Andreia Guerreiro.

Políticos presentes

Catarina Martins, coordenadora do Bloco de Esquerda, participou na marcha e deixou um alerta: "As mulheres têm de ser respeitadas no momento do parto, o que também nem sempre acontece". Em declarações aos jornalistas, a dirigente bloquista referiu que "o número mais expressivo [da violência contra as mulheres] talvez seja o facto de que, a cada ano, 30 mulheres são assassinadas pelos seus companheiros ou ex-companheiros. E esta é a ponta do icebergue".

Para resolver esses problemas, Catarina Martins disse que é "necessário um combate cultural na educação", uma vez que, os "números de violência no namoro mostram que a violência não está a ser resolvida". Os "mecanismos de segurança e medidas de apoio às vítimas" deveriam ser melhorados, assim como a "formação de forças de segurança e magistrados", concluiu. A líder do PAN, Inês Sousa Real também marcou presença.

A secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro presente na manifestação, lembrou o "intenso alargamento dos gabinetes de apoio à vítima pelo Governo" e das "redes locais de apoio" com a inclusão de mais municípios e organizações da sociedade civil. A formação de forças de segurança, profissionais de saúde, ação social, educação e justiça "está em marcha pelo plano anual de formação que abrangerá até 2023 mais de 12 mil profissionais".

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