
A regularização fluvial da maioria dos cursos de água do Norte e Centro representou um investimento de 11,43 milhões
Artur Machado / Global Imagens
Os rios que foram afetados pelos incêndios florestais ocorridos em outubro de 2017 estão reparados em 57 concelhos do Norte e Centro do país, no âmbito de um projeto da Agência Portuguesa do Ambiente com as câmaras municipais dos territórios mais atingidos.
10485258
Ao longo dos últimos dois anos, o projeto de regularização fluvial da maioria dos cursos de água do Norte e Centro representou um investimento de 11,43 milhões de euros, de acordo com o relatório final de execução, enviado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) ao JN.
"A consequência dos incêndios para toda a rede hidrográfica manifestou-se em várias dimensões, desde logo na alteração do estado da massa de água, proteção de zonas balneares, albufeiras e pontos de captação", explica o vice-presidente da APA, Pimenta Machado, que coordenou o projeto. Agora, está reparada uma grande parte do estrago feito pelo fogo nos ecossistemas ribeirinhos. Foi garantido o escoamento, removido material dos leitos e recuperada a secção de vazão das passagens hidráulicas e pontões. Todas as intervenções eram consideradas "urgentes e inadiáveis" para a regularização fluvial.
3640 pessoas estão envolvidas no projeto, a maioria habitantes dos concelhos afetados
O projeto resulta de uma resolução do Conselho de Ministros datada de janeiro de 2018, no rescaldo dos incêndios de 15 de outubro de 2017, que tiraram a vida a 50 pessoas em Portugal. Aquele foi mesmo o pior dia do ano mais trágico de sempre em matéria de incêndios florestais.
As obras agora concluídas permitiram recuperar linhas de água, passagens hidráulicas, açudes e pontões. Foram levadas a cabo pelas 57 câmaras municipais com apoio técnico da APA e, de acordo com o relatório, a autarquia de Oleiros foi a que teve a maior verba para restaurar os seus rios: mais de um milhão de euros.
Na área da Administração Regional Hidrográfica do Norte foi o concelho da Guarda que mais verba teve, 936 mil euros, e na área da Administração Regional Hidrográfica do Centro foi Oliveira do Hospital, com 450 mil euros. Este foi também o concelho que mais sofreu com os incêndios de 15 de outubro, contabilizando focos em dez locais e 12 vítimas mortais.
Soluções naturais
Na sequência da tragédia, de forma a minorar danos causados por futuros fogos, o projeto da APA também apostou na criação de laboratórios destinados à renaturalização dos ecossistemas ribeirinhos em 16 concelhos onde se registaram focos de de grande dimensão. Os laboratórios são espaços de impacto regional, fundamentalmente formativos, onde se desenvolvem e aplicam técnicas de engenharia natural que contribuem para a reabilitação do património ribeirinho. Ali são criadas soluções de engenharia natural que visam ser uma barreira aos incêndios, ao mesmo tempo que melhoram a qualidade da massa de água e minoram os efeitos das cheias e secas. "Estamos a fazer um grande esforço para sensibilizar os municípios, seus técnicos e também a comunidade" para a adesão a estas soluções, reforça Pimenta Machado.
As obras foram executadas por empresas das regiões afetadas, o que cria um "efeito muito importante para a economia regional", ao mesmo tempo "capacita as empresas para estas soluções de engenharia."
Modelo vai ser aplicado noutras regiões
O modelo de requalificação de linhas de água afetadas por incêndios vai ser aplicado a outras regiões. Pimenta Machado dá o exemplo do Algarve, onde está em curso a elaboração de protocolos com os concelhos de Silves, Portimão e Monchique. O incêndio na serra de Monchique, em agosto de 2018, foi o maior daquele ano e demorou duas semanas a extinguir.
