Agressão em Moscavide

Telefones avariados e salas armadilhadas. Médico sovado desafia ministra a ir ao terreno

Telefones avariados e salas armadilhadas. Médico sovado desafia ministra a ir ao terreno

"Nem uma chamada poderia ter feito". O médico que foi socado e pontapeado por um doente em Moscavide, durante 10 minutos, alerta assim para a falta de condições de trabalho e pede à ministra da Saúde que "vá aos sítios" ver tal realidade. Ali, os telefones estão avariados há bastante tempo e as salas são obstáculos à fuga dos clínicos.

Vítor Silva Santos, o médico que foi agredido por um doente no último dia do ano no Centro de Saúde de Moscavide, denunciou, ao JN, falhas nas condições de trabalho dos profissionais da saúde, que dificultam uma resposta rápida e eficaz a episódios de violência como aquele por que passou.

Ainda segundo o clínico, há notoriamente um aumento das agressões, verbais e físicas, por parte dos utentes, que mostram dessa forma a sua frustração para com as dificuldades vividas no Serviço Nacional de Saúde (SNS).

No caso de Vítor Silva Santos, não só foi impossível o pedido de ajuda ter sido feito pelo telefone do gabinete médico, já que os equipamentos estão avariados há muito tempo, como uma fuga ao doente e à namorada deste, que o agrediram, tendo em conta que a sala "está armadilhada na forma como está disposto o mobiliário".

"Há medidas que não são caras para pôr cobro a isto. Se há algo que a ministra [da Saúde], ou os secretários de Estado [da Saúde], pode fazer é ir aos sítios e perceber porque episódios destes acontecem. Ali, além da configuração das salas, que me impediram de fugir, porque os médicos têm que passar pelos doentes, os telefones não funcionam há bastante tempo. Nem uma chamada eu poderia ter feito", disse, quando questionado pelo JN se tinha recebido alguma chamada da Ministra da Saúde ou de responsáveis da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo.

No caso do gabinete, "a porta abre à esquerda, logo depois estão as cadeiras, e à direita está a secretária". "Não consegui sair rapidamente do gabinete e fui encurralado pelo casal devido à configuração do espaço. Mas isto acontece com muitos outros colegas noutras unidades", revelou.

"Os doentes estão a responder cada vez de forma mais violenta às esperas ou a fechos de atendimentos complementares a partir de determinada hora, como aconteceu contra uma funcionária em Moscavide, no dia 27, pelas 19.15 horas", disse, ao JN, revelando que uma doente agrediu verbalmente quem estava no atendimento administrativo, quando soube que já não havia vagas para o atendimento complementar.

Vítor Silva Santos, que foi agredido no atendimento complementar, lembrou os "10 minutos de terror" a que foi submetido pelo jovem de 21 anos, que lhe foi pedir uma renovação da baixa, e a namorada, moradores no Prior Velho. "Disse-me que estava pior, mas a verdade é que não tinha comprado nem tomado nenhum dos medicamentos prescritos pelos colegas", revelou. "Expliquei-lhe que não conseguiria sustentar uma renovação de uma baixa que terminou no dia 25, quando era dia 31 e com tal historial", disse.

A namorada do jovem, que ajudou o agressor a socar e a pontapear o clínico de 65 anos, invocou falta de dinheiro para que o agressor não tenha comprado os medicamentos.

Segundo o médico, submetido esta quinta-feira a exames, das agressões sofridas resultaram um olho ferido e uma costela fraturada. Estará, pelo menos, quase duas semanas de baixa. O jovem terá sido identificado pela PSP no dia 31.

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