Covid-19

Uma enfermeira contra o vírus. Grafitti em Gaia de Mr. Dheo é homenagem aos profissionais de saúde

Uma enfermeira contra o vírus. Grafitti em Gaia de Mr. Dheo é homenagem aos profissionais de saúde

Uma enfermeira, de farda azul e máscara, combate o coronavírus com um bastão. Esta é a imagem pintada numa parede em Vila Nova de Gaia pelo artista português Mr. Dheo, representando a luta dos profissionais de saúde contra a pandemia de covid-19. Uma forma de "homenageá-los", mas também um alerta para o "problema" das suas condições de trabalho e dos salários.

A imagem surgiu com estrondo nas redes sociais. Foi publicada na página do Instagram de Mr. Dheo na noite de segunda-feira e em menos de 24 horas já tinha mais de 12 mil "gostos" e centenas de comentários e partilhas. "Anjos na terra" é o nome do mural que o artista grafitou em Gaia e com as fotografias do resultado final da obra vem uma história e um alerta.

A mulher retratada no mural é a "enfermeira Sofia", que trabalha no Hospital de S. João, no Porto. No texto que acompanha a publicação do Instagram, Mr. Dheo conta que Sofia "foi infetada em março com a covid-19 não num restaurante ou num bar, não num convívio com amigos ou num evento cultural ou desportivo, mas a exercer as suas funções". Sem ter "a sorte de ser assintomática, esteve infetada dois meses e enfrentou semanas longas e duras de recuperação das suas totais capacidades", acrescenta o artista de rua.

Hoje, Sofia está "nas unidades de doentes com covid-19 e de medicina, mas vestida com uma farda azul, novamente do lado de quem cuida e ajuda o próximo tantas vezes no limite da exaustão, tantas vezes prescindindo de coisas básicas que nós - do lado de cá - damos todos os dias como garantidas. A enfermeira Sofia, como tantas outras Sofias, fará - só este mês e entre outros - sete turnos de 18 horas seguidas. Ganha 7€ à hora", criticou Mr. Dheo, terminando a mensagem com uma "sincera homenagem" aos profissionais de saúde: "Obrigado enfermeira Sofia, obrigado a todas as Sofias".

Em entrevista ao JN, o artista desvendou um pouco mais sobre a obra, que mais do que uma homenagem deve servir também como uma "reflexão" sobre as condições atuais dos médicos e enfermeiros que enfrentam a pandemia. "Lido de perto com profissionais de saúde e isso dá-me uma perspetiva mais clara quer da realidade que todos vivemos quer daquilo que eles vivem diariamente a vários níveis. Achei que faria sentido homenageá-los, numa fase extremamente complicada em que muitos de nós acabamos por depender deles direta ou indiretamente", explicou Mr. Dheo, alertando para o facto de ser "necessário" refletir sobre as "suas condições de trabalho, sobre a forma como muitas vezes são tratados, sobre os seus salários, sobre a sua verdadeira importância".

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"Este trabalho foi a minha forma de procurar dar-lhes o reconhecimento que eles merecem mas também de alertar para esta problemática. Foi o meu "muito obrigado" da melhor forma que o sei fazer", revelou o "grafiter".

Sobre a localização da obra, o artista disse apenas que esta se encontra num "espaço abandonado" em Gaia, por "falta de um espaço legal para o fazer". "Neste caso em particular, é completamente indiferente. Como artista de rua sinto que devo transmitir a minha mensagem de uma forma genuína e independente, sem ter de esperar que um hospital ou alguma outra entidade me contrate para o fazer", assegurou.

Quanto ao impacto deste tipo de intervenção artística para retratar os problemas da realidade, Mr. Dheo lembra a importância de "sensibilizar" e "dar voz" a quem não a tem. "Considero que nós, artistas de rua, temos inevitavelmente visibilidade e poder de comunicação. Chegamos a qualquer pessoa, de qualquer extrato social, de qualquer idade, de qualquer religião, visto que o nosso trabalho está na rua e não tem (nem deve quanto a mim) seguir determinadas regras que nos são impostas. E isso faz com que tenhamos obviamente de ter algum cuidado com a forma como comunicamos mas também a consciência de que podemos sensibilizar e dar voz a uma parte da sociedade que muitas vezes não a tem, relatando questões tantas vezes esquecidas ou colocadas em segundo plano", concluiu.

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