
Faltam poucas horas para que a cortina se abata sobre o palco da política. Entramos em período de reflexão e em fim de semana prolongado. Noutros anos, pode ter sido uma boa desculpa para se abster. Não desta vez. Cada um de nós pode votar onde quiser e onde estiver. E, como sempre, em quem quiser.
Estas eleições europeias foram encaradas como uma espécie de segunda volta das legislativas de março passado. Uma forma de desempatar PSD e PS. Várias sondagens depois, dir-se-ia que o mais provável é que os dois grandes partidos permaneçam empatados. Algum terá de vencer, mas ninguém diria nesta altura que a diferença será muito grande. Ainda assim, esperemos pelo voto, esse gesto definitivo. Numas eleições em que, por haver um único círculo eleitoral, não existe pressão para o voto útil.
Uma campanha europeia que ficou marcada, nesta reta final, pelas várias medidas anunciadas pelo Governo. Dos aumentos no Complemento Solidário para Idosos, ao acordo para recuperar o tempo congelado aos professores, dos planos de emergência para a Saúde e para a Imigração, aos descontos fiscais no IRS e no IMT para os jovens, sejam eles pobres remediados ou ricos. Uma ajuda seguramente aplaudida por Sebastião Bugalho, o caneça de lista da AD.
Mas não se pode dizer que a Oposição, e em particular o PS, também não tenha feito pela vida na tentativa de anunciar coisas boas para os eleitores. Aproveitando o facto de PSD e CDS estarem em minoria no Parlamento, haverá novos descontos no IRS para todos, bem como isenção de portagens em várias auto-estradas. Mesmo que seja apenas para o ano, o que conta é a intenção. Ou assim esperam.
O “grilo falante” das contas públicas
O puxão de orelhas chegou esta sexta-feira, através de Mário Centeno. A conjugação da redução de receitas (fiscais) com o aumento de despesas (salários e subsídios), levará as contas públicas de novo para o défice, e será assim já no próximo ano, alertou o atual governador do Banco de Portugal que, recorde-se, enquanto ministro das Finanças, foi o primeiro a conseguir um excedente no período da democracia.
Como também lembrou Centeno, as regras orçamentais da União Europeia estão de novo em vigor: limite de 3% do PIB no défice, máximo de 60% do PIB na dívida pública. Concorde-se ou não estas regras, elas existem, e Portugal tem de as cumprir, alerta o “grilo falante” das contas públicas. Ficou naturalmente a falar sozinho, porque não se perde tempo com assuntos desagradáveis em vésperas de uma ida às urnas. O mergulho na realidade virá depois.
Com que partido se identifica?
Se ainda está com dúvidas sobre o seu voto de domingo, pode sempre navegar no EUVoto, a versão portuguesa do VoteMatch Europe, “uma ferramenta que permite descobrir quais os partidos que melhor se alinham com as suas opiniões”.
Depois de dar a sua opinião sobre uma série de declarações, os resultados vão apresentar-lhe uma lista de partidos. O que estiver no topo é aquele com o qual tem mais posições em comum. No fundo, vai ajudá-lo a perceber com que partido, ou partidos, vai à bola.
O EUVoto foi desenvolvido por uma equipa da Unidade de Investigação em Governança, Competitividade e Políticas Públicas da Universidade de Aveiro, em colaboração com a ProDemos – House for Democracy and the Rule of Law, uma fundação independente cujo objetivo é educar as pessoas e incentivar o envolvimento na democracia.
Uma guinada à Direita
Parece quase certo, a julgar pelos vários agregadores de sondagens, que o Parlamento Europeu vai guinar à Direita. De acordo com as projeções do “politico.eu”, que este Radar Europa tem acompanhado, a soma dos vários partidos da direita radical populista e da extrema-direita poderá chegar pelo menos aos 178 deputados (no agregador de sondagens da Europe Elects o resultado não é muito diferente, seriam apenas menos quatro).
Se estes resultados se confirmarem no próximo domingo, a “bancada” mais à Direita seria a mais numerosa, ultrapassando o centro-direita do Partido Popular Europeu (173 deputados) e o centro-esquerda dos Socialistas e Democratas (143 eleitos). Partidos eurocéticos e nacionalistas que partilham a ideia de um regresso a uma Europa das nações, recuperando partes da soberania cedida à UE, que pedem políticas contra a imigração mais duras, e que se propõem desmantelar o Pacto Verde Europeu. Isto não significa, no entanto, que haverá uma única família política da direita radical.
Houve vários sinais de uma tentativa de formar um “supergrupo”, que resultaria da junção dos Conservadores e Reformistas Europeus (ECR, em que os partidos de maior dimensão serão os Irmãos de Itália, de Giorgia Meloni, a Lei e Justiça da Polónia, e o Vox de Espanha) e do Identidade e Democracia (ID, em que se deverão destacar a União Nacional da francesa Marine le Pen, a Liga de Matteo Salvini, e o Partido da Liberdade de Geert Wilders, para além de ser a família de que, à data, faz parte o Chega).
O “centrão” a perder força
Se essa “fusão” falhar (já foi tentada, sem êxito, no passado), é até possível que apareça ainda um terceiro grupo da direita mais extrema, que seria capitaneada pela Alternativa para a Alemanha, expulsa do ID já durante esta campanha, depois do seu cabeça de lista ter desculpabilizado a pertença às SS nazis. Não será fácil, no entanto, já que a formação de um grupo parlamentar exige pelo menos 23 deputados de sete países.
Enquanto a direita mais radical se fortalece, a “grande coligação de centro”, que tem ditado a maioria dos consensos, deverá perder força. A soma dos deputados do Partido Popular Europeu (173), Socialistas e Democratas (143) e Liberais (75) garante uma maioria por escassa margem: são necessários 361 votos, estas três famílias terão 391. Muito curto quando o histórico demonstra que há sempre inúmeras dissidências dentro de cada grupo (não há disciplina de voto no Parlamento Europeu). Pode não ser suficiente, por exemplo, para Ursula von der Leyen renovar o mandato como presidente da Comissão Europeia.
Há duas famílias políticas que poderão sofrer uma verdadeira hecatombe no próximo domingo, quando forem divulgados os resultados das eleições nos 27 Estados-membros: os Verdes arriscam perder quase metade dos seus deputados (de 72 para 41), enquanto os liberais podem perder quase um quarto (de 102 para 75). Quanto à Esquerda Europeia, que já era o grupo mais pequeno, poderá ficar ainda mais curto (de 37 para 32 eleitos).
O colorido das campanhas de rua
Ao longo destas duas semanas de campanha, os jornalistas do JN acompanharam, durante um dia, a caravana de cada um dos oito principais candidatos. Deixo-lhe um aperitivo e a ligação para cada uma dessas reportagens:
Marta Temido: “Sentado no selim da bicicleta, Joaquim Nogueira observa o aparato que se forma junto ao Gil Eannes, navio-hospital transformado num museu que exala a memória de Viana do Castelo e homenageia a comunidade piscatória. Sob um sol quente, invulgar naquela cidade de mar, jovens socialistas equipam-se com t-shirts azuis e bandeiras do partido e da União Europeia, antevendo a jornada de campanha. “Vem aí aquela senhora do covid, não é?”, questiona o vianense de 66 anos, natural da Ribeira de Viana do Castelo”, por Sara Gerivaz.
João Cotrim de Figueiredo: “Foi num autocarro azul e estampado com uma grande fotografia de João Cotrim Figueiredo e com o lema “Portugal maior na Europa? Com Cotrim sim” que a comitiva de campanha da Iniciativa Liberal chegou a um stand automóvel de carros usados e clássicos em Gondomar, debaixo de um sol intenso e com mais de meia hora de atraso. No terceiro dia de campanha, o objetivo dos liberais foi alertar para a “cobrança discriminatória” em Portugal do imposto sobre veículos (ISV)”, por Abílio T. Ribeiro.
Pedro Fidalgo Marques: “São pouco mais de 200 metros que separam o Cantinho do Tareco da Associação Amigos Picudos, na Maia. O local ideal para Pedro Fidalgo Marques arrancar o quarto dia de campanha, acompanhado novamente por Inês Sousa Real. O cabeça de lista do PAN às europeias quis dedicar a jornada à “proteção da biodiversidade”, colocando o foco nos Animais e na Natureza”, por Abílio T. Ribeiro.
Francisco Paupério: “Francisco Paupério está sentado num passeio junto ao portão do parque de jogos do Gatões Futebol Clube, em Guifões, Matosinhos. São duas da tarde de sexta-feira, o sol chegou em força à campanha eleitoral e o cabeça de lista do Livre às Europeias aguarda a chegada de todos os jornalistas ao local, para começar a visita às oficinas da CP. Não há grandes comitivas atrás dele, nem autocarros gigantes, nem bandeiras, nem música, nem fogos de artifício a anunciar a sua presença”, por Rita Salcedas.
Sebastião Bugalho: “A cada passo, Sebastião Bugalho distribui beijos, abraços e aceita tirar “selfies”, ao estilo da política dos afetos pela qual ficou conhecido o presidente da República. O cabeça de lista da AD procura ganhar pontos na rua, enquanto temas como os direitos das mulheres, em particular o aborto, continuam a ser armas de arremesso contra a sua candidatura, que a Esquerda tem colado à extrema-direita europeia. Bugalho insistiu que não há “hesitação” ou retrocessos naqueles direitos”, por Carla Soares.
António Tânger Correia: “O local da arruada é duplamente simbólico: foi em Algueirão-Mem Martins que André Ventura nasceu e foi nessa freguesia que, nas legislativas, o Chega teve mais votos a nível nacional. Ventura ofuscou totalmente o cabeça de lista, Tânger Corrêa – chegou até a corrigi-lo – e saudou a "aproximação" do Governo ao Chega sobre imigração, instando a AD a ir mais longe. Junto à escola onde estudou, foi ovacionado por jovens em êxtase, transformando uma arruada apática num momento de afirmação da sua "persona" política”, por João Sousa.
Catarina Martins: “No décimo dia de campanha, o Bloco de Esquerda foi ao supermercado para mostrar a disparidade no poder de compra entre países europeus. Com um Salário Mínimo Nacional (SMN) de 820 euros, o carrinho dos portugueses ficou mais vazio, quando comparado com franceses e espanhóis. Numa encenação à porta de um espaço comercial, no Porto, a candidatura de Catarina Martins às europeias muniu-se de três carrinhos, com supostos clientes trajados a rigor, onde não faltou a boina e a baguete debaixo do braço ou um xaile pelos ombros com as cores da bandeira lusa”, por Carla Soares.
João Oliveira: “Ainda antes de entrar no Museu Militar do Porto, um grupo de militares pergunta a Maria José Ribeiro. "É para a CDU? Tem de entrar pela outra porta", diz um deles. A co-fundadora do Movimento Democrático de Mulheres e conhecida antifascista do Porto tem hoje uma responsabilidade em mãos: entregar as assinaturas de 153 ex-presos políticos para apoiar os comunistas. Para parte da comitiva da CDU, esta é a primeira vez que pisam a antiga sede da PIDE no Porto. Mas, para Maria José Ribeiro, este é um regresso ao passado. Esteve ali detida várias vezes”, por Rita Neves Costa.
