
Como já vem sendo tradicional, a RTP abriu espaço ao debate entre os candidatos dos partidos mais pequenos. Uma festa da democracia? Nem por isso. Serviu sobretudo para lembrar a quem teve paciência para ver até ao fim, por que razão estes partidos vão continuar nas margens do sistema.
A transmissão, que pode ver na íntegra aqui, teve início por volta das 22,30 horas de quinta-feira e prolongou-se por quase duas horas. Não se sabe quem tomou a decisão de escolher uma hora mais tardia, mas foi o mais acertado, uma vez que, para além de alguns momentos hilariantes e propostas bizarras, que hão de fazer as delícias dos programas de humor, também houve conteúdos “hardcore”. Pode ler a síntese do debate publicada no JN, ou arriscar continuar para a análise que se segue, candidato a candidato, começando pela estrela da companhia.
Rui Fonseca e Castro, Ergue-te
O ex-juiz expulso da magistratura por ter incitado à violação da lei e das regras sanitárias durante a pandemia, atirou todos os trunfos para cima da mesa: homofobia, xenofobia e antissemitismo. Começando pelo fim, defendeu a tese de que a matriz cultural europeia e portuguesa não é judaico-cristã, é só cristã, porque “o judaísmo é inimigo do cristianismo”. Ainda antes, a propósito da guerra na Ucrânia, argumentou que esta “só favorece a judiaria do armamento internacional”. Quanto a imigrantes, só se forem europeus. Os outros, incluindo os dos PALOP, só servem para “ocupar casas e postos de trabalho”. A ideologia de género e a homossexualidade são outro tema que deixa o ex-juiz a ferver. Desde logo, porque, em seu entender, a homossexualidade não é uma orientação, está a ser promovida. No fundo, ensina-se. Onde? “Nos manuais escolares” e pelos professores, que dizem “às crianças que devem experimentar ser as duas coisas, menino ou menina”. Só para terminar, um alerta: se alguém se lembrar de enviar os filhos de Rui Castro para a Ucrânia, que se prepare, porque o candidato do Ergue-te ameaça começar “uma guerra em Portugal”.
Joana Amaral Dias, ADN
Uma candidata que acredita em estranhas teorias da conspiração: a poucos dias da invasão russa da Ucrânia havia um acordo entre Zelensky e Putin, disse. Aliás, foi porque havia esse acordo que as tropas russas pararam o seu ataque às portas de Kiev. Só faltava um encontro final entre os dois presidentes, mas foi tudo “mandado ao charco pelos criminosos da morte”. O que quer que isso queira dizer. Uma candidata que defende o dinheiro físico, em detrimento do dinheiro digital. É a melhor defesa “em caso de cataclismo”. Ou seja, mesmo que, como disse noutra intervenção, a propósito da guerra mundial que aí vem, 2024 seja “o último ano para muitos de nós”, teremos sempre as notas. No tema da imigração, mais uma revelação: os elementos da organizações não governamentais que andam por aí a salvar migrantes de morrerem afogados no Mediterrâneo, são “lobos com pele de cordeiro” que fazem parte das “máfias” de tráfico humano.
José Manuel Coelho, PTP
O candidato não tem um discurso lá muito bem estruturado, mas há uma coisa que ninguém esquecerá, tantas vezes o repetiu: é madeirense. Aliás, era o único que não estava presente em estúdio, falou a partir da Madeira. Personagem com patine na política portuguesa (já foi candidato presidencial e deputado na Assembleia Regional), atirou uma das frases mais certeiras do debate: alguns dos seus colegas só estavam "a dizer bacoradas”.
Duarte Costa, Volt
Começou por se dirigir aos espectadores em inglês, uma originalidade um pouco deslocada. E voltou a merecer destaque quando, visivelmente incomodado com algumas das tiradas do ex-juiz do Ergue-te, denunciou o seu inaceitável antissemitismo. No resto do tempo destacou-se por ser um candidato normal, profundamente europeísta e com propostas com cabeça, tronco e membros, coisa que não mais se viu naquelas duas horas. O seu principal erro pode bem ter sido o de estar no debate. Nem que seja por contaminação, talvez lhe tire mais votos do que aqueles que haveria para ganhar.
Gil Garcia, MAS
Foi o representante da extrema-esquerda no debate. Quer “uma Europa dos trabalhadores”, mas não teve tempo de explicar o que isso seria. Não quer mais dinheiro para a guerra na Ucrânia, nem para despesas militares, ainda para mais quando a UE é apenas “um súbdito da estratégia dos americanos, que a seguir vão tratar da China”. Se for eleito deputado vai propor um “corte do salário e das mordomias para metade”, uma vez que, mesmo sendo o Parlamento em Bruxelas, e o custo de vida mais alto do que por cá, metade deve ser suficiente. Se não for, logo se vê. E, de qualquer forma, como admitiu, será só um e ninguém vai aprovar.
Manuel Carreira, MPT
Entra na categoria de candidatos excêntricos destas eleições. Ficou a saber-se que é psicólogo, tantas vezes os repetiu, e começou por alertar para o facto de haver “oito mil biliões” (talvez quisesse dizer milhões) de pessoas na Terra e que metade são infelizes. Defende a reintrodução do serviço militar obrigatório, mas para preparar os nossos jovens “para a paz”. Até porque, presume-se, se fosse para os preparar para a guerra, ficariam infelizes. Quanto ao aborto, “é sempre um mal, embora às vezes um mal necessário”, mas não pode acontecer “por questões de dinheiro”. Seria talvez, outra infelicidade. No que diz respeito à imigração, preocupa-o que aqui chegue gente de culturas, línguas e religiões tão diferentes. Não explicou bem porquê. Talvez ache que nos torna mais infelizes.
Ossanda Liber, Nova Direita
A candidata que se diz conservadora, mas farta do politicamente correto e que, por causa disso, ao que diz, está sempre a ser catalogada como “fascista”. E acrescentou: “algum radicalismo é normal, mas não sou de extrema-direita”. Não a sigo nas redes, mas pelo menos no debate, e por comparação com o truculento candidato do Ergue-te, passa por ser uma política de grande moderação. Nota-se o euroceticismo, mas não quer Portugal fora da Europa. Nota-se o discurso anti-imigração, mas não se excede. Nota-se a resistência a armar a Ucrânia, mas contém-se.
Márcia Henriques, RIR
O partido foi fundado por Vitorino Cunha, mas o famoso Tino de Rans parece ter passado procuração a Márcia, presidente e candidata omnipresente (já foi cabeça de lista por Lisboa nas legislativas). É europeísta, mas revela uma peculiar visão utilitarista para justificar a pertença. Deu um exemplo paradigmático, ao nível dos autoclismos: quando pressionamos um, e a coisa corre para os esgotos, à UE o devemos. No fundo, e para rematar, Portugal é um país em que só se faz alguma coisa “quando a UE nos impõe metas”. Seja para carregar no autoclismo, seja para outra coisa qualquer.
Pedro Ladeira, Nós Cidadãos
É o candidato do único partido português composto por cidadãos (ficou por esclarecer o que será a restante gente). O seu grande mantra parece ser a família e a demografia. Em pelo menos duas oportunidades se referiu a uma das suas propostas fundamentais: acabar com o celibato na Igreja e, dessa forma, combater os baixos índices de natalidade na Europa e em Portugal. Até já fez a sugestão ao Vaticano. E citou o testemunho de um padre amigo, que lhe confessou a vontade de colaborar nesta política. “Não aceito que a Igreja, que defende a transsexualidade, não deixe padres e freiras terem família e filhos”, rematou. Fez ainda uma revelação que deita por terra tudo o que temos visto, ouvido e lido sobre a guerra na Ucrânia: neste momento, não se passa nada. A guerra “está em banho-maria”. Foi o que lhe disseram uns amigos ucranianos. Não há nenhuma razão plausível para se achar que está a ser enganado.
