
Imperscrutável. Parece um exercício de trava-línguas, mas é também o adjetivo adequado para o debate que juntou, na noite de terça-feira, os oito principais candidatos às eleições para o Parlamento Europeu. Em concreto, aquela primeira meia hora dedicada à discussão sobre as novas regras orçamentais da União Europeia.
O recurso a chavões atingiu seu ponto de maior imperscrutabilidade quando Catarina Martins (BE) e Cotrim de Figueiredo (IL), que aliás formaram o par da noite, se embrenharam numa discussão despropositada sobre políticas pró-cíclicas e contra-cíclicas. Uma descoroçoada Marta Temido chegou ao ponto de deixar escapar o desabafo, para si própria, mas na verdade audível pela audiência: “as pessoas não percebem o que estamos a dizer”. Pelo menos nesta parte, a socialista foi absolutamente certeira.
É verdade que se percebeu quem é contra e quem é a favor das tais regras orçamentais, não se percebeu é porquê. Se estiver interessado em tirar dúvidas sobre a matéria, talvez valha a pena espreitar este explicador publicado recentemente pelo JN. Se quiser rever o debate, pode fazê-lo aqui. Se não quiser perder tempo com a parte imperscrutável da discussão, acelere até ao minuto 27.
Imigração = Pobreza = Criminalidade
Em dia de visita de Zelensky a Portugal, este seria sempre um tema incontornável. A discussão decorreu de forma previsível, com sete dos oito candidatos alinhados na solidariedade e no fornecimento de armas à Ucrânia. O único a destoar foi João Oliveira (CDU), e não fez a coisa por menos: entregar armas à Ucrânia, disse, é o mesmo que “transformar os ucranianos em carne para canhão”. E se nada disse sobre os efeitos dos canhões russos na carne dos ucranianos, foi capaz de antecipar, numa das tiradas mais demagógicas da noite, que, não tarda, os filhos dos portugueses estarão a combater nas trincheiras.
Acrescente-se, em contraponto, que o candidato comunista também foi o mais assertivo no combate às tiradas xenófobas do candidato do Chega, no que foi um dos momentos marcantes de um debate com quase duas horas de duração. Tânger Correia não tem dúvidas na seguinte relação de causa e efeito: imigração igual a pobreza, pobreza igual a criminalidade. Conclusão, que não foi expressamente dita, mas ficou subentendida: imigrante é sinónimo de criminoso. João Oliveira atacou diretamente à jugular: “O Chega quer que Portugal seja um país de ódio”.
Duas semanas fartas em anúncios
E ao terceiro dia de campanha, o Governo anunciou o seu plano de emergência para saúde. O que é que isto tem a ver com eleições europeias? Tudo. Porque Luís Montenegro não precisa de aparecer em arruadas ou jantares-comício com Sebastião Bugalho para dar um empurrão à AD. Basta-lhe governar. Não há instrumento de propaganda mais poderoso.
Note-se que é suposto um Governo governar. Nada a dizer quanto a isso. Mas também vale a pena destacar a coincidência extraordinária de boas notícias concentradas nas duas últimas semanas: começou a 14 de maio com o anúncio da decisão sobre o novo aeroporto de Lisboa, juntando-lhe uma nova ponte sobre o Tejo e uma ligação de TGV entre as duas captais ibéricas; seguiu-se, a 15 de maio, a nova proposta para baixar o IRS; depois, a 20 de maio, o acordo para recuperar o tempo congelado aos professores, com os consequentes ganhos salariais; a 23 de maio chegaram as novidades sobre os generosos descontos no IRS até aos 35 anos; e, finalmente, esta quarta-feira o plano de emergência para a saúde. Se, depois de tudo isto, a AD não vencer as eleições...
Populistas não gostam do Pacto
Deixemos a política nacional e voltemos à política europeia. Ainda que fora do ambiente de campanha, vale a pena destacar uma entrevista do comissário europeu Margaritis Schinas, publicada esta quarta-feira no JN. De passagem pelo Porto, o também vice-presidente da Comissão Europeia, que tem o pelouro do “modo de vida europeu” abordou vários dos temas que dominam a atualidade. Desde logo o novo Pacto para as Migrações e o Asilo, de que, aliás, foi um dos principais responsáveis.
Argumenta Schinas que “o facto de os populistas, de direita e de esquerda não gostarem [do pacto], é uma prova de que estamos no caminho certo. Os populistas preferiam que a Europa não tivesse qualquer pacto. Porque isso justificaria a sua narrativa de que a Europa é incapaz de produzir qualquer solução, de que a Europa é inútil.”
Outro dos temas da entrevista foi o da defesa e segurança comum. Diz o comissário grego que nos encontramos “numa situação em que há quase consenso de que precisamos de cuidar da nossa própria defesa e segurança. E há também a certeza de que não haverá ninguém a segurar o guarda-chuva e a garantir-nos proteção (...) Penso que é necessário, diria até urgente, um acordo franco-alemão sobre defesa europeia (...) Seria um erro embarcar numa viagem rumo à defesa europeia sem ter essa base política.”
Se quiser perceber melhor os argumentos, pode ler a entrevista na íntegra aqui.
Sinais de interferência russa
Há muito que o tema das interferências russas no processo eleitoral e de decisão política se transformou numa preocupação dos responsáveis do Parlamento Europeu. O JN também já dedicou atenção ao tema. Como escreveu o jornalista Delfim Machado, num trabalho que poder ler aqui, “no Parlamento Europeu, os relatórios da comissão especial sobre a ingerência estrangeira em todos os processos democráticos na UE identificam a Rússia como a principal ameaça. À medida que o 9 de junho se aproxima, maior é o risco (...) As tentativas de corrupção dos deputados, os ciberataques e a desinformação são os três principais meios de ingerência utilizados atualmente.”
Esta quarta-feira, o tema voltou em força, com as notícias de que as autoridades belgas realizaram buscas nos gabinetes de um colaborador do Parlamento Europeu em Bruxelas e Estrasburgo, no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de ingerência russa e corrupção. O alvo da busca é um antigo assistente parlamentar do eurodeputado alemão Maximilian Krah, do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD). O eurodeputado que, numa entrevista ao diário italiano La Repubblica, considerou ser "errado" afirmar que todos os membros SS (organização paramilitar ligada ao regime nazi) eram "criminosos". Uma polémica que terminou com a expulsão da AfD do grupo parlamentar Identidade e Democracia, a família política do Chega.
