A cor do protesto mudou. Extrema-direita penetra nos bastiões comunistas

(Foto: Artur Machado)
O Chega pintou o mapa a sul do país, conquistou e consolidou Setúbal, Alentejo e Algarve, ocupou o espaço tradicionalmente de Esquerda. Depois do Tejo, a paisagem política alterou-se. O que aconteceu para esta perda de território do PCP? O descontentamento não explica esta mudança. Há outros fatores.
Domingo, 18 de maio, pouco antes da meia-noite, os ecrãs das televisões mostram o mapa do país, laranja a norte, azul carregado a sul. A AD ganha as eleições com 32,7% dos votos e 89 deputados. O Chega faz história com o melhor resultado da sua curta vida, 22,6%, posiciona-se ao lado do PS, 58 deputados para cada partido – e ainda falta contar os votos da emigração, podendo ser a segunda força no Parlamento. A noite é dramática para a Esquerda, para o PCP, que foi a votos com o PEV na coligação CDU, que perde expressão, menos um lugar na Assembleia da República, menos fôlego na luta. O Chega entra nos bastiões comunistas sem pedir licença. E nada será como antes.
Nos dias seguintes às eleições, no rescaldo dos resultados, não se fala noutra coisa no Café Avenida, no centro de Beja. “Claro que se fala disso, aqui e em todo o Alentejo. Em Baleizão, que sempre foi comunista, o Chega empatou com a CDU, veja lá”, diz António Silva, dono do estabelecimento comercial, confessando não ter ficado totalmente surpreendido.
Pela primeira vez, o Chega foi o partido mais votado no distrito de Beja, 27,7% dos votos, mais 5,57 pontos percentuais do que nas legislativas de 2024, elege um deputado, AD e PS conseguem um eleito cada. António Silva tenta entender o que aconteceu. “Isto é uma revolta, uma revolta das pessoas com tudo o que se passa, o estado do Alentejo, está tudo abandonado, é a minha opinião.” O comerciante assiste ao mingar de um bastião comunista. “Alguma coisa as pessoas querem dizer com estes resultados e a abstenção não foi assim tanta.” Em 14 concelhos e 75 freguesias, a abstenção em Beja foi de 37,68%.
O sul do país não é o mesmo eleitoralmente. O PCP encolhe, o Chega sobe. Mais votos é uma das explicações. Nas eleições de 2022 e 2024, isso já aconteceu, mais gente nas urnas, recorda João Carvalho, doutorado em Ciência Política, professor e investigador do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. “Há uma grande correlação da abstenção e do voto no Chega. Há uma redução maior da abstenção e o Chega é o partido que mais beneficia”, revela. As mensagens do partido de André Ventura passam e o contexto político, de instabilidade e de eleições atrás de eleições, é-lhe propício. “Não interessa o programa, interessa o estilo, o discurso e a postura.” E os bastiões comunistas viram radicalmente à Direita.
A trajetória de descida do PCP é anterior ao aparecimento do Chega, repara André Azevedo Alves, professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, mestre e doutorado em Ciência Política. “É um fenómeno mais de longo prazo, pré-Chega, por via do reforço do PS. A erosão recente é para o PS, o desgaste do PCP vem de trás.” Ou seja, é anterior à afirmação do Chega nos últimos três anos. A verdade é que o partido cresceu na cintura industrial de Lisboa, em Setúbal, no Alentejo e no Algarve. “O Chega está a entrar muito rapidamente num espaço onde o PCP já não estava.”
A politóloga Teresa Ruel, professora de Ciência Política no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa, ressalva que ainda está tudo muito fresco, que é necessário analisar mais dados, que leituras rápidas e prontas a consumir não devem imperar, que é preciso ir mais atrás, perceber que eleitorado é este que foi chamado três vezes às urnas em pouco mais de três anos. Há, no entanto, um sinal que parece evidente. O eleitorado está em mutação, em alteração. “Há uma exigência mais refinada por parte do eleitorado que não estávamos a contar e a saber ler essa demanda”, constata.
O Chega cresce por todos os lados. Em Setúbal, venceu com maioria em sete concelhos do distrito e conquistou o primeiro lugar com 26,38% dos votos, o BE perdeu a sua única deputada, o PCP baixou ligeiramente de 7,73% para 7,12%, conseguindo manter Paula Santos no Parlamento.
Nestes territórios a sul, onde a insatisfação com o PSD e PS vinha a aumentar, o Chega capitalizou o seu populismo, o seu discurso antielites, e o PCP continuou a desaparecer lentamente, analisa João Carvalho. “O Chega entrou de rompante e conseguiu mobilizar o voto de protesto. No Alentejo, existe uma forte clivagem entre a comunidade cigana e a restante população. E o PCP nada fez para apaziguar essa clivagem”, acrescenta o professor do ISCTE.
A desmobilização do eleitorado
Faro voltou a ser do Chega na noite de 18 de maio, o partido mais votado, uma subida de 27,19% para 33,09%, quatro deputados, mais um do que nas legislativas do ano passado. Foi o partido mais votado em 11 concelhos. Albufeira, Lagos, Loulé, Portimão. Na capital de distrito, o Chega disputou o primeiro lugar com a AD, ficou em segundo por apenas 271 votos.
Para André Azevedo Alves, é necessário olhar para dois aspetos: fatores internos e tendências internacionais. “A expansão do Chega é relevante, cresce em todo o país, onde cresce menos é onde a Direita tradicional resiste mais e é mais forte, que é no norte do país.” A sul, domina. “O Chega está a entrar num crescimento acelerado e nos espaços onde tradicionalmente dominava a Esquerda.”
E como se abriu esse espaço? A transferência direta de votos para o Chega não será a principal explicação, não será por aí, é situação que não acontece com frequência. A resposta é outra. “Pela desmobilização do eleitorado à Esquerda, extremamente envelhecido, pelos abstencionistas que se transferem da Esquerda para o centro-direita e para o Chega.” A Esquerda sofre, o PCP não fica imune. “O Chega tem sido extraordinariamente bem-sucedido no eleitorado mais jovem”, afirma o professor da Católica.
João Carvalho tem dados sobre essa realidade. “O Chega tem o eleitorado mais jovem a seguir à IL. Em contrapartida, o PCP tem o segundo mais velho.” O PCP desaparece do mapa e o Chega aproveita. E não só, galga terreno na classe trabalhadora, aproxima-se de preocupações do eleitorado do sul, desde logo quanto à imigração. Não será por acaso que reforçou a sua vitória em Faro. Paradoxalmente, ou talvez não, a narrativa económica do Chega, apesar das “grandes inconsistências e flutuações”, faz eco nas classes trabalhadoras. “O discurso económico do Chega é mais próximo da Esquerda do que da Iniciativa Liberal”, observa André Azevedo Alves.
O PCP perde margem também por aqui. “Entra nos bastiões tradicionais da Esquerda, apelando às bases sociológicas da Esquerda. O Chega é o candidato a ser o novo PS no espaço da Esquerda”, antevê André Azevedo Alves. Apesar de tudo, o PCP não morreu, nota o professor, as notícias do seu funeral foram manifestamente exageradas. “Apesar de tudo, resiste. É um dos últimos partidos da Europa e do Mundo não reformados, que nunca renegou a União Soviética. O modelo tradicional da foice e do martelo praticamente desapareceu.” Por isso, é a sua sobrevivência que deve ser questionada. Nestas eleições, a contagem dos votos mostra 1 345 689 votos para o Chega, 180 943 para o PCP, distância enorme de mais de 1,2 milhões de boletins nas urnas de todo o país.
Teresa Ruel lembra as divisões, as fragmentações, as desigualdades sociais, o capital e o trabalho, a Esquerda e a Direita, o nós e os eles, a corrupção, e como tudo isso vem à tona. “Determinados assuntos têm sido ativados ou reativados e os próprios eleitores acabam por se identificar nesses aspetos.” O que significa que o discurso do Chega fica nos ouvidos e manifesta-se nas urnas. “Neste momento, não é só o PCP que tem essa dissonância entre a sua base de apoio e a sua estratégia”, comenta a professora do ISCSP.
Há um outro motivo. A herança da geringonça é pesada para o PCP, sublinha João Carvalho. Por várias razões, por ter andado, anos e anos, a afirmar que não era um partido como os outros e, depois, ter-se entendido com António Costa no Governo. “Nunca conseguiu explicar ao eleitorado ter feito parte da geringonça e perdeu capacidade de se apresentar como um partido de protesto”, explica o professor do ISCTE. Isso ficou, a Esquerda sempre associada aos problemas criados pelo Governo da geringonça de Costa com PCP e BE.
A extrema-direita cresce e ganha visibilidade e poder na Europa e Portugal não é apenas um cantinho à beira-mar plantado na ponta de um continente. O que acontece aqui é semelhante ao que aconteceu, por exemplo, em França, recorda André Azevedo Alves, com Le Pen a instalar-se na Esquerda. “A tendência internacional de partidos de direita radical e de extrema-direita é substituir o espaço sociológico de partidos de Esquerda tradicional.” É o que está a acontecer por cá. Os resultados das eleições de 18 de maio são inequívocos. Nessa noite eleitoral, Paulo Raimundo deixou um aviso e a promessa de enfrentar com “muita coragem” a extrema-direita. Como o fará no chão comunista?
