"Pai aos 50" é uma crónica semanal assinada pelo escritor Joel Neto.
Oprimeiro a dizer-mo claramente, ao saber de que ia nascer o Artur, foi o Pedro Sobral, meio divertido e tão sério como nunca:
- Nunca mais vais estar descansado.
Depois o Pedro Sobral morreu a andar de bicicleta, atropelado numa manhã de Inverno quando ainda era mais novo do que eu sou agora, e eu percebi-o de vez: a partir do momento em que temos filhos, nunca mais estamos descansados. E menos ainda quando temos mais 50 anos do que eles e, sempre que abrimos o jornal da terra, a primeira coisa com que vamos dar são os rostos de malta da nossa idade - gente conhecida, rapazes com quem jogámos à bola, mulheres de colegas do liceu - por debaixo de uma cruz preta na secção de necrologia.
E, entretanto, sempre que toca o telefone e é do colégio, eu tremo. E, sendo a Marta, pior ainda - muito pior. Seja a que horas for: corro para o telefono e suspendo a respiração:
- Está tudo bem?
Já nem digo: "Então, amor?", ou sequer: "Estou?" Vejo a cara dela no ecrã - uma foto por sinal com ele ao colo, já grande e a armar ao bebé, num dia em que fomos ao Jardim Zoológico -, e estremeço. Isto quantas vezes ela me ligar por dia.
E nada indica que o nascimento da Salomé o atenue, se é que não o agravará. Mas, também, quem é que quer uma vida sem preocupações? Para que serve a vida de um homem de 51 anos se nada preocupar esse homem? O que é que nós temos realmente se não tivermos preocupações?
Houve um tempo, mais próximo do que às vezes parece (e muito mais distante do que parece noutras), em que eu passava os sábados a passear pela ilha ouvindo o "No surprises", dos Radiohead. Foi um tempo fundador, de grande intimidade com este lugar e com a vida, e também de forte crescimento intelectual. Tenho saudades dele, sobretudo quando estou muito cansado. Penso em como era atravessar do Algar do Carvão para a Agualva, ou descer a Estrada do Paraíso, e cantarolo:
I"ll take a quiet life
A handshake of carbon monoxide
And no alarms and no surprises
É uma canção que andou comigo durante anos, como um hino. Mas a verdade é que nunca foi sobre os méritos de uma vida sem surpresas, e antes sobre como uma linda casa, um lindo jardim e muito silêncio podem enlouquecer-nos se não houver nada por que possamos alarmar-nos. E, quando eu olho por esta janela, e vejo o meu jardim desorganizado, e faço as contas às horas para ir buscar o Artur, e percebo que estou atrasado, e faço as contas aos dias para nascer a Salomé, e fico com os nervos em franja, e de repente liga-me a Marta, e cai-me tudo ao chão - nesse momento eu sei que a minha vida está no seu auge, e que portanto há ainda mais razões para aquelas cruzinhas pretas atraírem os meus olhos no jornal.
O autor escreve de acordo com a anterior ortografia.

