"Cidadania Impura" é uma crónica semanal assinada pelo escritor Valter Hugo Mãe
A minha mãe habita uns casacos gigantes durante o Inverno. São casulos de marchar que a envolvem como casas moles e gordas. Parece uma coisa nublada, uma nuvem que passa de sapatilhas apressada pelo vento. Aqui, temos sempre vento no Inverno. Ninguém vai na rua senão ao empurro para trás e para diante. Quem habita casacos gigantes, mais se vê à mercê da força do vento e mais se impressiona com o tamanho das tempestades de agora. Agora, as tempestades são furiosas. A gente até duvida que nos queiram mal. São estranhas, de estranhas maneiras e claras intenções. Antigamente, o clima não tinha intenções. Era uma espécie de boa-fé contínua da Natureza.
Andamos a fugir das gripes porque a vacina não contempla a estirpe popularizada e estamos rigorosamente nada interessados em padecer. Somos abrigados e pacientes. Queremos Primavera urgente. Aceleramos as ideias para acelerar o tempo. Somos vistos a protestar todos os dias. O protesto aquece e o Inverno ganha-nos medo. Somos ferozes. A minha mãe, de todo o modo, é de gripes ligeiras. Pode ser das vacinas que se tomavam na sua infância. As crianças que as suportaram podem bem ter condição de mutantes, meio fortalecidas como super-bichos humanos como já não se fazem em lugar nenhum.
Temos saído muito pouco para compras e passeios. Andamos sem grandes refeições nos restaurantes. Ficamos em casa e sabemos da rua porque o cão precisa, e sempre o passeamos com avisos graves e cinematográficos. O cão, medricas e atazanado com o vento e o frio, despacha o passeio em minutos. Por vezes, nem quer. Olha para a crise que vai na rua e encara-nos incrédulo, com a lata que tivemos de o mandar sair de suas mantas de qualidade.
A minha mãe, habitando um dos seus casacos gigantes, ainda lhe diz para ir só um bocadinho, bem pode piorar o tempo e até chover, melhor que aproveite. Mas o cão não tem expectativas. Ele só aceita e recusa o que vê. É tão casmurro, e medricas, que só sai se vir a minha mãe brava no vento a mostrar que não levanta voo e que ainda é possível a normalidade num mês de Janeiro tão criado para nos atrapalhar a vida.
Os casacos, diz a minha mãe, podem ser uma coisa tão bruta que nem as paredes de algumas casas se comparam a tanta espessura de competência contra a tempestade. As tempestades devem ficar pasmas com a moda que se faz.

