"Cidadania Impura" é uma crónica semanal assinada pelo escritor Valter Hugo Mãe
Entendo bem que a velhice não é um atributo do tempo mas do corpo. Não é idade, é física. Um acontecimento concreto que difere de corpo para corpo, criando um estado único para cada pessoa. Meu estado único, neste instante, é o da velhice. Estou cheio de limitações, alergias, intolerâncias, irritações, incapacidades, lentificações, pasmos e preguiças. Estou cheio do Inverno. Não só não sou quem costumava ser como não suporto o ter sido. Dá-me tonturas, o passado. Estou atacado de velhice, talvez por me ter tornado tão francamente avesso ao que fui.
Implico com a memória e até regresso a um filme ou a um livro como quem vai sentir o contrário, ver o contrário e avaliar o contrário. Faço algum esforço para gostar do que não gostava e, sobretudo, desprezar aquilo que me pareceu relevante. Estou cheio de urticária com os Radiohead, por exemplo. Que considerei uma grande coisa e, agora, só de ver o senhor a tremelicar com a mania já me dá uma falha no fusível, corta-me a luz do pensamento. Estou completamente a borrifar-me para a digressão que estão a fazer, a esgotadice dos bilhetes e o fricote de virem ou não a Portugal. Não me interessa nem que toquem na garagem aqui do prédio.
O corpo pede outra qualidade e outro juízo. Ouvir Brahms é muito mais adequado à minha actual musculatura. Uma orquestra tem mais que ver com a natureza de funções infinitas do organismo. Somos de afinações várias e cheios de naipes, colectivos que operam para efeitos distintos a colaborar para o universo da vida. A vida humana é muito mais à mistura a solicitar maestro, uma direcção, um sentido. Sou, julgo que finalmente, com sentido. A deriva é para quem não se conhece de verdade.
A velhice é uma oposição. Somos uma candidatura derrotada que precisa de fazer frente a um poder que se lhe impõe. O que me confirma que o poder só afasta quem o detém de se consumar. O sentido inteiro está em lutar sempre, ainda que se saiba que vamos perder, perderemos até não haver mais nada para perder. A lucidez diante dos sinais de acabar, é o que importa. Lucidez e bravura, porque aprender é ser mais forte perante o que é obrigatório. O que é natural. As minhas queixas são, por isso, minha ternura.

