"Cidadania Impura" é uma crónica semanal assinada pelo escritor Valter Hugo Mãe.
Bé
Enternecem-me as rendas, a arte silente que, na nossa cultura, tem sido cuidada pelas mulheres e que mostra como a História as obrigou à imparável utilidade. Enternece-me que o tempo livre das mulheres se tenha visto confiscado por essa ideia de ainda prestarem serviço. De não pararem de fabricar, proibidas de um verdadeiro descanso, proibidas do profundo ócio. Vejo nas rendas uma mudez a pousar nos móveis como roupa de vestir a casa, para que até a casa tenha decoro, pudor, elegância, brio, felicidade. As coisas felizes.
Ficam sem nomes, as rendas. Ficam sem nomes nas casas e vamos tentando lembrar as que foram da avó, da mãe, das tias, das irmãs. Tentamos manter a memória para saber que estamos um pouco junto dessas mulheres quando estendemos uma toalha ou dispomos as jarras sobre os aparadores. Quase sempre, confundimos. Ficam os objectos a valer por si e por todas as mulheres do Mundo. Como prova de um silêncio gigante e colectivo que acometeu a todas as mulheres do Mundo. Nas nossas casas, por tantas toalhas e colchas, por tanto linho que floresce nas extremidades belas, distribui-se uma identidade sem nome que se pode chamar simplesmente mulher.
Há dias, recebi de Natal duas toalhas de banho com rendas antigas da Bó Bé. Jamais a colocaria a serviço. São como obras de arte. São obras de arte. Não as quero em perigos. Quero-as como companhia. Julgo que meu problema com os objectos passa por me acompanhar deles por lhes perscrutar uma qualquer alma, uma espiritualidade que é prova de alguém. Não sou materialista, acumulo por uma esquisita maneira de me sentir com alguém. E, a Bó Bé, é alguém de muita beleza que eu vou querer sempre ter por perto. As suas rendas serão sempre um pouco da sua própria gentileza, da sua própria alegria de nos ver a todos.
Um dia, se não souberem mais sobre as rendas que tenho em casa, saibam ao menos que, naquele vasto silêncio sem nome a que podemos entregar tanto da palavra mulher, há a expressão da Bó Bé. Hoje, com mais de noventa anos de idade, ela talvez nem saiba que a queremos feliz por mais noventa anos ainda. Queremos a sua companhia pelo dobro do tempo. O dobro do dobro. Para sempre.

