"Cidadania Impura" é uma crónica semanal assinada pelo escritor Valter Hugo Mãe
O cinema de Béla Tarr é por dentro, como um fantasma que todos carregamos. Deixa-me a impressão de perder o corpo, assistir como quem deambula num estado imaterial, apenas neblina, uma brancura que vai cegando, tão feita de dia quanto afeiçoada à noite. Os filmes de Tarr são abertos para longe. Não porque aconteçam em outro país, mas porque acontecem numa profundidade humana que nos obriga a entrar nos calabouços de nós mesmos, lentos e graves, descemos por nós mesmos sem fim.
Dizia que não lhe importava o cinema, apenas a vida. Os nossos heróis são quase sempre aqueles que usam de um superpoder sem deslumbre. A Natureza não se espanta consigo mesma.
Morreu Béla Tarr e parte de mim vai à terra. Estou amuado com a vida, com Deus e os santos, estou até zangado para lá da melancolia que me dá e que já uso de estimação. Eu sabia bem que nos prometera não filmar mais, mas pensei que fosse mentira. Toda a gente mente no essencial. A saúde mental manda mentir. Pensei que viesse de surpresa para mais uma estreia, talvez o trouxessem a Espinho, a fazer oficinas com umas pessoas do cinema que lá vivem. Passei anos à espera de ouvir notícias nesse sentido. Até me pareceu que as pessoas de Espinho deviam andar burras por não o trazerem mais. Sempre espero que a burrice se cure, mas não a morte. Odeio a morte. Odeio cada vez mais a morte. Esta porcaria de decidir sobre quem pode e quem não pode. Porque o senhor Béla Tarr tinha setenta anos de idade e eu considero isso uma idadezinha de criança. Os meus amigos de setenta anos não sabem nada. Para tantas coisas, ainda estão por nascer. Como aquela princesa de Walser, para tantas coisas, ainda são noivos deles mesmos. Não descobriram nem o grande amor.
Quem sabe o senhor Tarr vinha a Espinho e ainda nascia um pouco? Um resto. Quem sabe se era ali um amor tão grande que desse um filme maior do que sete horas e meia? Um filme ainda mais nosso, uma fantasmagoria nossa que só ele podia entender e mostrar.
Morrer um artista assim é morrer uma oportunidade que a humanidade teve apenas uma vez. É perdermo-nos a todos. A todos.

