"Pai aos 50" é uma crónica semanal assinada pelo escritor Joel Neto
Oh, pá, dêem-me as fraldas e as noites sem dormir. Para que é que eu haveria de querer a vida se não a quisesse para tratar de fraldas, acorrer a noites sem dormir ou ter um ser pequenino e inocente, imitação mal imitada de alguém que amo ou é até de mim mesmo - uma minúscula sinestesia capaz de pronunciar cores e ouvir cheiros e tropeçar e cair no chão -, a assoar-se às minhas calças de sarja?
Dêem-me as fraldas, as noites sem dormir, o ranho, os xaropes, as birras. Dêem-me as tosses, as inquietações, as secas infinitas a ver o Pocoyo - meu Deus, como é intolerável e divertido, o Pocoyo, ao pé do Pocoyo até A Bela e o Monstro se aguenta - e os dias de febre que nunca mais acabam, com canjas e termómetros e cabelos em pé escorrendo paredes abaixo.
Que se lixe: dêem-me uma criança, dêem-me cinco crianças, dêem-me trinta e cinco crianças, todas aqui, de roda de nós, os dois numa pilha de nervos, desesperados por um minuto de silêncio. Que sejam todas saudáveis, curiosas, compassivas e, se possível, um pouquinho cómicas, para amaciar - e basta.
Sobretudo, não me digam agora esse tipo de coisas, "é difícil". Parece que a cada dia que passa o ouço mais:
- Ao segundo não duplica, multiplica.
- Preparado para passar dois anos sem dormir?
- Depois de um santo vem um demónio.
Primeiro, o Artur não é um santo. Depois, se a Salomé for um demónio - deixemos passar a hipérbole, ridícula nas proporções como na natureza -, o mais provável é que a culpa seja nossa e o mereçamos.
Não, amigos. Eu sou McCartney, não Lennon. Eu aspiro a ser McCartney: os filhos primeiro. Se não fosse pelo amor, que fosse ao menos pela responsabilidade - o Bem primeiro.
É claro: tenho sobre vós a vantagem de ter chegado aqui tarde, com tempo para me aborrecer de morte e aprender a celebrar como exultações os mais insignificantes entusiasmos. Mas, principalmente, tomei atenção ao que de facto separa o êxito do fracasso, a completude do vazio: aquilo que dizemos a nós mesmos - e pouco mais.
Tudo o que faz a diferença é isto. E não falo do imperativo biológico, apenas o prego em que penduramos este quadro. Não falo da propagação genética, nem da posteridade, nem do triunfo sobre a solidão cósmica. Falo da inocência. Do único verdadeiro rosto da beleza. Do sublime que suplanta todos os outros - falo da inocência.
Que mais nos poderia interessar no Mundo depois de tomarmos atenção à inocência?
Por isso me reconfortou tanto conversar com o Zé Mário, esta tarde, ao telefone.
- Pelo amor de Deus - antecipei-me, a dada altura. - Não me vais agora dizer, também tu, que ao segundo multiplica.
- Ah, vou, vou. Multiplica a alegria, multiplica o afecto, multiplica a cumplicidade, multiplica a felicidade.
Senti-me mesmo próximo dele, como de costume. Depois falámos do Sporting.

