"Pai aos 50" é uma crónica semanal assinada pelo escritor Joel Neto.
A culpa, sim: a culpa vai ser um problema. A culpa já é um problema. Ainda por cima o Artur tem aquela espécie de sentido de humor que se compraz na ideia de derrocada. Gosta de esticar a corda. Diverte-se com o alarme. Delira com esse momento redentor em que abre um sorriso e nesse sorriso se concentram ao mesmo tempo um gatilho cómico e a tranquilização derradeira de que tudo esteve sempre sob o controlo, pelo que nada passou de uma partida. Pois, se abre esse sorriso e o objecto da sua prova lhe fecha o rosto, desata de imediato a chorar - até a cara esconde, com a culpa.
Por exemplo: há dias, deu uma dentada no David. Havia já algum tempo que notávamos que o David se ia consolidando no topo das predilecções dele, o que não era surpreendente. Além de ter o cabelo de um anjo e a cara de um cartoon, o David é mesmo engraçado. Fala que se desunha e é espertíssimo. Que se tenha tornado o melhor amigo do Artur, ademais com as suas origens humildes, só nos faz celebrar. Mas no outro dia, por alguma razão infantil, o Artur deu-lhe uma dentada. E, muito depois de o David se ter esquecido dela, ainda o Artur chorava de arrependimento e vergonha - de culpa, outra vez.
A Marta chegou a casa inquieta com o relato da Pilar. E o que fizemos ambos? Contas. Portanto, o nosso filho passa três anos a levar dentadas dos coleguinhas, sem por uma só vez nos chegar a informação de que tivesse devolvido uma. Então, se agora começa ele a morder, de quem poderia ser a culpa senão nossa, que estamos a) a perder o Norte às coisas com a chegada da Salomé, b) em todo o caso a esquecer-nos das necessidades emocionais dele, c) tão concentrados na sobrevivência da livraria que nem olhamos à volta ou d) outra coisa qualquer, seja como for, a fazer asneira.
Como é que ele não havia de herdar isto? Era inevitável. E nós estamos conscientes do problema desde o primeiro momento. Falamos nisso. Policiamo-nos individualmente e um ao outro: "Cuidado, para ele não ser tão escravo da culpa como nós." Só que a culpa já lá está. Como está em nós, avassaladora, apesar da nossa tão cabal consciência de como fomos censurados, recriminamos e chantageados ao longo da vida. Como, aliás, já haveria de estar naqueles que nos censuraram, recriminaram e chantagearam, porque a censura, a recriminação e a chantagem são a suprema linguagem deste povo mariano e desesperado.
Apetece berrar: "Eh pá, deixem de ser egocêntricos! Nem que quisessem conseguiam ter culpa disso tudo. Mas quem é que vocês acham que são, o centro do Mundo?!" Não serviria de nada. Nós sabemo-lo e, mesmo racionalizando, também aqui estamos. Mais valia ao nosso filho ter-lhe ocorrido nascer daquela índole dos que não se sentem culpados nem da porcaria que de facto fazem. Entre um extremo e o outro, só um se consegue disfarçar de milagre.

