"Cidadania Impura" é um espaço de opinião semanal assinado pelo escritor Valter Hugo Mãe
Sempre me surpreende a simpatia de alguém para comigo. Sou aquela alma de fundo do poço que se vê como sem vez, sem luz, sem nome. Não há nada que me cure, nem lucidez nem razão, nem livros nem filmes. Fico perplexo com o cuidado dos outros, só não me mostro corado porque o sangue me vai todos para os pés. Tenho tão boa circulação que até de Inverno descubro os pés descalços durante a noite de hora a hora.
Quando alguém como o Daniel Rezende me aborda com carinho, eu faço contas ao que me quer. Que raio tenho eu para oferecer a uma pessoa assim? Nunca sei. Por mais evidente, declarado, eu duvido. Penso que a única maneira de corresponder à sua atenção é entregar um rim, a medula, o meu lindo chaveiro da Cartier que recebi de presente há tempos. Nem encontro modo de responder. Normalmente, fujo. Quando admiro as pessoas, tenho tendência a bater uma foto e fugir. Não sei fazer mais nada.
O Daniel apaixonou-se pelo meu livro, como a Karen e a Juliana se haviam apaixonado. O amor pelos livros é tão belo que consegue inventar um pequeno amor até pelos autores. Eu sei disso. Nunca deixarei de amar Saramago ou Lobo Antunes. Nassar ou Adélia Prado.
E o Daniel partiu para fazer um filme que é tão lindo porque o próprio filme se coloca como uma declaração de amor ao livro. Ele é uma arte autónoma, mas é um gesto de correspondência impressionante. É o rim, a medula e o chaveiro da Cartier, tudo junto. O Daniel entregou.
Se eu saí do poço? Não. Não ganhei luz própria nem espero minha vez. Apenas sobrevivo e estudo a felicidade. Em princípio, ser feliz é saber que a felicidade existe. A sua ideia é tudo. Mas no poço há uma cidade por causa do Daniel. Há ruas e casas, um mar inteiro e pessoas que passam para todos os caminhos, e há lojas, livrarias, há restaurante de frutas frescas, mesmo jabuticaba, e há cinema. No poço, há de tudo, por causa de pessoas como o Daniel.
Milhões de pessoas viram o filme que o Daniel fez e mil vieram derramar sobre mim um delicado carinho. Estou tão encantado que devo estar a fazer nascer pássaros de meus dedos, sem querer, só por mover um pouco de ar e tudo já ser o começo de um vento em festa.

