Tenho andado atento aos pedidos de desculpa do Artur: podem tornar-se aflitivos. Ontem foi porque se partiu um brinquedo qualquer sem importância. A Marta olhou para aquilo e, achando ter-se-lhe deparado uma oportunidade de pedagogia, disse qualquer coisa como:
- Querido, mas agora ficaste sem brinquedo, tens de ter cuidado...
Foi mais do que branda. Mas ele olhou para ela, agastado, e, enquanto a sua fácies se começou a vestir da mais pura aflição, num vórtice para que tudo no seu corpo se ia já precipitando, repetia:
- Desculpa. Desculpa, mãe. Desculpa!
Foi preciso darmos-lhe ambos um abraço, num desagravo primeiro contrito e depois esforçadamente cómico, para ele sair daquele estado de culpabilização ao qual a Marta nunca quis conduzi-lo (ao qual nunca nenhum de nós quer conduzi-lo), mas afinal condu-lo (ambos conduzimos) com mais frequência do que alguma vez seria de esperar num mundo em que imperasse a racionalidade.
Se isto é herança genética, ou um hábito cultivado à volta dele desde o berço, ou simples mimetismo, isso não sei. Sei que os dois, eu e a Marta, sofremos do exacto mesmo mal: aconteça o que acontecer, tema-se que possa acontecer o que se tema que possa acontecer, a culpa é nossa.
E, então, muitas coisas são possíveis. Pedirmos desculpa numa aflição é uma delas. Rechaçarmos as culpas numa veemência insegura é outra. Revoltarmo-nos com a nossa infeliz condição é outra ainda. Nenhuma será boa e todas contam uma mesma história de escravatura.
Digo os dois, e são mesmo os dois. Somos diferentes em muita coisa, mas nisso somos iguais. Só se estraga uma descendência, e aí é que a porca torce o rabo.
Eu sei onde começou o meu vórtice pessoal. Sei-o bem, cheguei lá sem terapias (ou talvez quase sem terapias), mas precisei de tempo. E a Marta também é capaz de saber onde começou o dela. Não estou certo: é um assunto com que tenho um cuidado suplementar - ela é mais nova do que eu, ainda nem teve o tempo de que eu precisei, e além disso é mais inteligente. Desde logo, sabe da sua escravidão numa idade em que eu ainda nem pensava na minha.
O problema é que sabermo-lo, discutirmo-lo, deplorármo-lo não foi suficiente para impedirmos que o nosso filho chegasse aqui - isto é, àquele aflitivo pedido de desculpas por coisas nas quais não tem qualquer responsabilidade - em apenas três anos. Pior do que isso: algo me diz que nem sequer conseguimos evitar contribuir activamente (embora inconscientemente, espero poder dizê-lo) para isso.
Até hoje, valia-me aquilo que um dia me disse a Ana Celeste quando eu já ameaçava ceder ao peso dos meus erros: "Ora, Joel, não sejas egocêntrico. Não conseguiste ser melhor, simplesmente. Não és Deus nem é suposto seres. Aceita os teus erros com humildade".

