"Pai aos 50" é uma crónica semanal assinada pelo escritor Joel Neto.
Como é que nós sabemos se o Artur vai receber bem a irmã? Não sabemos. Sabemos que conta a toda a gente que a mamã tem na barriga ("na rabiga", continua a dizer, num daqueles erros que vão perdurando até entrar na mitografia familiar) a sua irmã, que por sua vez se chama Salomé. Sabemos que, há dias, disse pela primeira vez, dramatizando após um vago embate na barriga da mãe:
- A Salomé fez dói-dói ao Artur.
Sabemos, na verdade, que vai ser fácil muitos dias e difícil muitos dias, embora as proporções possam ser mais ou menos animadoras. Sabemos, em suma, que vai haver curiosidade, aborrecimento, carinho, ciúmes, rivalidade, uma cumplicidade relutante, muitos cabelos esganipados e - a certa altura - um abraço que nos vai parecer o mais promissor de tudo. Mas de resto não sabemos mais nada.
E na verdade o teste vai ser esse. O trabalho assusta, claro. Para um casal com uma criança pequena e quase nenhuma família, proprietário de uma empresa familiar com dez ordenados mensais para pagar e um modelo de negócio absurdamente laborioso e vulnerável - no qual, aliás, empenhou as poupanças e as próprias perspectivas -, um recém-nascido tem um lado assustador. Já nem falo das noites: bastará uma virose para a borboleta da Nova Zelândia bater as suas asas.
Mas o que verdadeiramente determinará a nossa competência enquanto pais será aquilo: o modo como eles vierem a dar-se vida fora. Independentemente dos humores, dos impulsos mais ou menos irreprimíveis, das tentações, das exasperações e até das paixões: como olharão eles para os triunfos um do outro? E para os fracassos? E para a esperança? Que espécie de empatia sentirão pela dor do outro? Que espécie de ressentimento nutrirão pelo irmão no momento da sua própria dor? E no de uma perda comum?
Por exemplo, na morte de um progenitor. No dia de um funeral. Na partilha de uma herança. No programa de Natal em vigor daí em diante.
Essa será a prova de contraste. Porque um pai será sempre o primeiro responsável pela natureza da sua relação com os seus filhos (e dos seus filhos com ele, ou ela). Mas, quando o que estiver em causa for a relação entre os filhos, a sua responsabilidade será a primeira, a última, a suprema e a única que realmente importa. Se não for um exercício de alteridade, a paternidade nunca foi ou será mais nada.
Portanto, sim: tem um lado assustador, a chegada do segundo filho. Mas o trabalho, por muito suplicioso que seja, ainda é o menor dos problemas. O maior é estarmos preparados para ficar a saber se merecíamos que algum deles tivesse chegado a nascer. A nossa melhor garantia ainda será darmo-nos nós próprios mal com os nossos irmãos: jamais aceitaremos sem luta não sermos muito melhores do que os nossos pais.

