No lançamento de um volume sobre os livros que publiquei nestes 25 anos, para que o meu amigo Paulo Matos reuniu outros amigos e cúmplices sem o meu conhecimento, percebi duas coisas: que já publiquei mais livros do que aqueles de que às vezes me lembro; e que já fui mais homens do que aquilo que, frequentemente, me é conveniente admitir.
Em geral, tudo o mais foi encantador, porque veio em primeiro lugar dos afectos. Foram proferidas grandiloquências sobre livros que não o merecem e contadas histórias bem menos admiráveis do que aquilo que de repente pareciam. Mas eu já vivi o suficiente para saber que declinar um elogio é ainda mais arrogante e estúpido do que aceitá-lo com humildade.
Na recta final da segunda sessão, uma apresentação já não no belíssimo Salão Nobre da Câmara, mas na nossa pequena livraria - e já não perante uma plateia de conhecidos e desconhecidos, mas já quase só de amigos -, a Paula soprou por entre os lábios, como num alívio: "Já este Carlos, não... Caramba, este Carlos não é boa pessoa". Coubera-lhe ler uma novela que publiquei em Espanha, e de que nem sequer tenho versão em português: a história de um monstro. Ora, também acontece que os meus livros costumam ser muito autobiográficos, de modo que as duas ou três pessoas que não me conheciam olharam de imediato para mim, num susto.
E, então, trespassou-me um calafrio: o que pensarão os meus filhos sobre o Carlos? E sobre todas as outras vezes que escrevi, talvez não sobre monstros, mas sobre crápulas? O que encontrarão neles que lhes ilumine um caminho, ou sugira uma solução, ou resolva um dilema? Dito de outra maneira: que encruzilhadas, que dúvidas, que indecisões poderá gerar-lhes a minha conduta como pai, marido ou cidadão ao ponto de em algum momento se lhes afigurar tentador aceitar a explicação que lhes pareceu encontrarem num livro?
Porque é sempre esse o problema, não? Um autor só precisa de ganhar dimensão humana quando não conhecemos realmente o homem por detrás dele. Quando temos de ir aos livros para decifrar um carácter, então sim, é porque não nos decidimos sobre o homem com que nos cruzámos. E era só o que faltava, nesta idade, depois disto tudo, os meus filhos não terem comigo intimidade o suficiente para poderem aquilatar daquele que os criou.
Hei-de dar tudo por essa intimidade. Nunca nada me interessou na vida além da intimidade. A que julgue ter encontrado nos meus livros talvez me ajude, um dia, a formar uma ideia de quem fui e para que servi. A que tiver sido capaz de gerar nos meus filhos há-de ajudá-los a eles, não a formarem uma ideia de quem foi o pai e para que serviu, mas para que são todas as pessoas e para que servem - a começar por eles próprios.
Os livros foram para mim, a paternidade é para eles. Parece tão simples e, contudo, esquecemo-nos tanto disso.

