"Cidadania Impura" é uma crónica semanal assinada pelo escritor Valter Hugo Mãe.
O José Bernardo sofre de vadiagem burguesa, uma estirpe específica da patologia que acomete às pessoas que não se trancam em casa de maneira nenhuma. Dá-lhe formigueiro e uma espécie de solavanco constante, e obriga a ir para hotéis e galerias de arte, restaurantes e até centros comerciais. Em cima disso, ao telefone, para acrescentar a sensação de estar longe, mais longe, em toda a parte, a ver e a saber de tudo. O José Bernardo podia ser feito com rodas, isso haveria de facilitar movimentos, fugas e regressos esporádicos.
O problema está nos pulmões. Não sei que raio lhes dá que ficam molhados. Os pulmões como esponjas absorvendo talvez uma qualquer chuva deste outono. O médico manda internar, ficar quietinho, esticado no seu pijama de flanela, sem nem poder palrar nem ir à pastelaria. Imaginar o José Bernardo sem ir à rua é uma dor na alma. Que desastre. Os médicos inventam cada terapia mais severa. Mandar que ele se meta na cama à espera de secar os pulmões é uma crise artística, uma ofensa bíblica, uma tristeza capaz de esganar gatinhos.
Por estes dias, novamente assim. Estamos à espera das melhores notícias, também porque o José Bernardo já mostrou que é mais resistente do que as baratas de Londres. Os artistas são feitos de muita fantasia, são capazes de mandar na vida porque a inspiram.
Não quero saber se aquilo é alagado nos pulmões ou no coração. As doenças ofendem-me. As dos amigos que amo. E não consigo ouvir direito o que nos explicam. Penso que têm de vir médicos da Lua para serem cheios de aparelhos com luzinhas e raios de cores e fazerem uma arma nuclear que expluda só com vírus, bactérias e alagamentos. O José Bernardo precisa do Flash Gordon, penso que era o Flash Gordon que tinha umas coisas de faíscas, já não sei se eram umas cabines onde entrava e aquilo deitava um fogo-de-artifício qualquer que era mesmo com potência e pinta.
O José Bernardo, lorde e com relações muito lordesas, só quer pintar, ler livros, ver uma nudez esporádica, falar dos anos 1970 e rir. É contra a tristeza. Eu também. E também sou contra a dor e contra não irmos jantar para refilar sobre os amigos que são burros e, mais ainda, sobre os amigos inteligentes, os mais inteligentes que nós. Praticamos a cobiça e a alegria da leviandade em doses inofensivas.

