
É uma época de amor e de expectativas. A ceia, as prendas, as conversas, as memórias, os conflitos, aquela palavra entalada na garganta. Nem tudo é ataque, nem tudo é julgamento. Façam-se planos e estabeleçam-se limites.
A quadra tem todos os ingredientes, ou quase todos, para ser perfeita. É Natal, é amor, é festa, é tempo de família. Até à ceia do dia 24 ou almoço de 25, há muito para pensar, planear, tratar. O jantar, as prendas, as tradições, maneiras de estar, assuntos pendentes, coisas mal resolvidas, eventualmente. Há mais gente à mesa, a mãe e o pai de cada cônjuge. Como lidar com os sogros na época natalícia? De várias maneiras e feitios. Alinhem-se expectativas, com algum ou bastante jogo de cintura, para evitar desilusões. Com gentileza e firmeza.
Sogros são sogros, convém não esquecer. Andreia Filipe Vieira, psicóloga clínica, começa precisamente por essa lembrança. "Os sogros não são apenas "os pais do outro". Representam, muitas vezes de forma inconsciente, a família de origem que não escolhemos, mas à qual somos convidados a pertencer." Por vezes, nas suas consultas, escuta frases como "sinto que estou sempre a ser avaliada", "nunca é suficiente para eles". Nestes casos, constata, o conflito raramente é apenas atual, do momento. "Muitas vezes, ativa memórias antigas de sentimento de inadequação, ligadas à própria história familiar da pessoa."
O primeiro passo, refere, é perceber que a intensidade emocional não nasce apenas do presente, mas de conteúdos psíquicos antigos que o Natal tende a amplificar. "A recomendação clínica passa por reduzir a personalização: nem tudo é um ataque, nem tudo é um julgamento. Muitas vezes é apenas repetição de padrões familiares que existem muito antes da nossa chegada."
Catarina Lucas, psicóloga clínica e psicoterapeuta individual e de casal, aconselha a definir limites de forma clara, calma, e com antecedência. "O casal deve alinhar expectativas antes do Natal, evitando levar conflitos antigos para a mesa." É fundamental aceitar que não é possível agradar a todos e que é importante dar prioridade ao bem-estar do casal e da família nuclear. Os sogros, para todos os efeitos e em qualquer ocasião, são os pais da pessoa com quem se está casado, em união de facto, a viver em comunhão. E estar em família é um dos mandamentos do Natal.
Não é simples, linear, ou fácil, gerir expectativas de vários lados, de várias famílias, que numa noite são uma só. Gerir expectativas passa por comunicar de forma clara e antecipada, recorda Catarina Lucas. "Combinar previamente horários, planos e limites ajuda a evitar situações desagradáveis e reduz conflitos nesta época tão especial. Aceitar a imperfeição das pessoas, assumir como um evento transitório e tentar não focar apenas nas características negativas", sublinha a psicóloga e psicoterapeuta.
"Gerir expectativas implica aceitar uma verdade difícil: nem todas as famílias sabem acolher emocionalmente, mesmo quando há boas intenções"
Andreia Filipe Vieira
Psicóloga clínica
O Natal permite tudo, ou quase tudo, o problema é quando os pensamentos se viram para o que é menos positivo, numa ideia fixa de reconhecimento e de aceitação plena. O que pode, como se percebe, puxar pela frustração. Exemplo: uma mulher que é nora e que, ano após ano, espera ser integrada nas tradições da família do companheiro. Isso não acontece e a ausência desse gesto é vista e vivida como rejeição pessoal. No entanto, pode não ser o caso, pode ser uma família com uma estrutura muito rígida, inclusão emocional limitada, não por maldade, mas por incapacidade. "Gerir expectativas implica aceitar uma verdade difícil: nem todas as famílias sabem acolher emocionalmente, mesmo quando há boas intenções", avisa Andreia Filipe Vieira.
À superfície, pode parecer tudo bem, mas, no fundo, haverá feridas por fechar que o Natal pode fazer estalar. "Combinar previamente horários, duração da visita e logística pode evitar conflitos, mas não elimina frustrações emocionais profundas. Para isso, é necessário um trabalho interno de aceitação do limite do outro", observa Catarina Lucas.
À mesa, num momento como o Natal, pede-se empatia, gentileza, boa-disposição, receber bem, tratar bem, conviver em família. Ciumeiras ou pontas soltas não são bem-vindas à celebração. Ter um plano, relativamente fechado, não é mau, nem exagerado. Um plano feito com consciência, claro. "Combinar antecipadamente não é controlar, é proteger o espaço psíquico", adianta Andreia Filipe Vieira.
Decidir como se divide o Natal entre famílias, definir quanto tempo se fica, quem faz o quê, quem traz o quê, não é falta de espontaneidade, é higiene emocional, garante a psicóloga clínica. Até porque muitos conflitos surgem quando se espera que o outro adivinhe necessidades ou limites. "A comunicação clara previne ressentimentos silenciosos, que são os mais corrosivos", considera.
A espiral de afeto, culpa, aprovação
Há atenção e cuidados a ter no respeito pelas tradições associadas à data e à quadra para não ferir suscetibilidades. Costumes são costumes, ponto final, não há flexibilidade aqui, questioná-los pode ser malvisto, até mesmo olhado como uma ameaça. Andreia Filipe Vieira lembra que as tradições familiares têm um valor simbólico profundo, representam continuidade, identidade e pertença. O Natal não é exceção. Do seu ponto de vista, o ideal é adotar uma postura de respeito observador, especialmente nos primeiros anos. "Não é necessário concordar com tudo, mas é importante perceber o que aquela tradição representa para aquela família." Seja na ceia, seja na forma de celebrar. "Muitas vezes, o que está em jogo não é o menu, mas o medo inconsciente de perder a identidade familiar. Escolher as batalhas é sinal de maturidade psíquica."
Catarina Lucas segue nessa linha. No seu entender, é preciso respeitar as tradições natalícias, mesmo que diferentes do que se está habituado, numa atitude aberta e empática. "Quando algo não faz sentido para o casal, o diálogo respeitoso e sem críticas ajuda a evitar ferir suscetibilidades", nota.
Depois, há as prendas, a hora de escolher, a hora de comprar. O que se dá aos sogros na noite de Natal? Um presente não é apenas um presente, é mais do que isso. "Os presentes, do ponto de vista psicanalítico, são mensagens simbólicas. Podem expressar afeto, mas também culpa, obrigação ou desejo de aprovação", repara Andreia Filipe Vieira.
Não há regras impostas nesta parte do Natal, na troca de prendas. O melhor é optar por algo simples para os sogros, adequado à história da pessoa, sem excessos. "Presentes demasiado caros podem gerar desconforto ou rivalidade; presentes impessoais podem ser vividos como desinvestimento." "Mais importante do que surpreender é não usar o presente como moeda emocional. O Natal não é o momento para provar valor pessoal", acrescenta a psicóloga clínica.
Presentes simples, neutros e pensados com atenção, evitando excessos ou mensagens ambíguas, sugere Catarina Lucas. "Quando há dúvida, optar por algo útil ou simbólico ajuda a garantir que a surpresa corre bem."
Natal é sinónimo de harmonia, de sentimentos bons, dentro e fora de casa. "A harmonia não se garante... negocia-se", refere Andreia Filipe Vieira. E começa no casal. A psicóloga deixa alguns conselhos. Quando o parceiro não assume uma posição clara, o conflito com os sogros tende a intensificar-se. O casal precisa de funcionar como uma unidade emocional, ou por outras palavras, como uma equipa. "Não se trata de cortar laços, mas de ajustar prioridades." A harmonia nasce assim, quando cada um conhece os seus limites, quando o casal se apoia mutuamente, quando se abdica da ilusão de agradar a todos. "A paz possível é sempre imperfeita, mas honesta."
"A harmonia familiar constrói-se com comunicação clara, respeito mútuo e limites bem definidos. Saber ceder em pequenos pontos e focar-se no convívio, em vez de nos conflitos, faz toda a diferença"
Catarina Lucas
Psicóloga clínica e psicoterapeuta individual
Dividem-se datas, a ceia numa casa, o almoço noutra, e tudo corre bem. Os sogros não têm de ser uma dor de cabeça. Pelo contrário. Há sogros e sogros, evidentemente, mas Natal pede paz e amor. "A harmonia familiar constrói-se com comunicação clara, respeito mútuo e limites bem definidos. Saber ceder em pequenos pontos e focar-se no convívio, em vez de nos conflitos, faz toda a diferença", explica Catarina Lucas.
Há estratégias de convivência, como é evidente, no Natal e fora dele. Saber lidar com aquele silêncio desconfortável, aquela tirada fora de sítio, aquele comentário feito a quente, aquela observação repetida e tão irritante. É Natal e o Natal pede delicadeza no trato, gentileza nos gestos. Os sogros são família e a família está prestes a reunir-se. E o ambiente são as pessoas que o fazem, que o constroem.
