"A vida como ela é" é uma crónica quinzenal assinada pela escritora Margarida Rebelo Pinto.
Foi há 100 anos que o realizador alemão Fritz Lang apresentou o filme "Metrópolis", uma visão distópica de um futuro distante que projetava o Mundo em 2026. Uma das funções da arte cinematográfica é a profecia. Neste caso, a convergência entre o que Lang imaginou e a realidade atual é impressionante: arranha-céus dominam a paisagem urbana, a elite desfruta de uma existência de luxo, enquanto trabalhadores invisíveis estão condenados à execução perpétua de tarefas mecânicas em condições sub-humanas debaixo da terra, dominados por um líder manipulador que semeia a discórdia, cópia tecnológica de um ser humano que foi silenciado.
Como um filme mudo pode dizer tanto sobre a Humanidade? O cinema é sobretudo a arte de comunicar por imagens, uma expressão artística na qual a imagem está, ou deve estar acima da palavra. Um século depois, os flagelos do Mundo moderno estão mais presentes do que nunca: desigualdades sociais cada vez mais profundas, condições laborais cada vez mais precárias, a tecnologia a assumir o controlo da informação e o condicionamento do comportamento humano.
Se a máquina da desigualdade que o filme denuncia é um retrato da sociedade industrial do início do século XX, onde estamos agora? No Fórum Económico de 2023 foi apresentado um estudo da Oxfam que revela que dois terços da riqueza mundial estão nas mãos de menos de 1% da população. O progresso tecnológico esconde um lado sombrio que devora o Mundo: a automação e o desenvolvimento da inteligência artificial já estão a mudar a realidade tal como a conhecemos. Até 2030, segundo um relatório da McKinsey de 2023, até 800 milhões de trabalhadores vão ser substituídos por robôs nas áreas de produção, logística e serviços. Temo que esta previsão esteja já desatualizada. Enquanto isso, a galopante disseminação de notícias falsas, a normalização do Deep Fake e o poder dos algoritmos vão moldando todos os dias a visão que temos da realidade. A ética não é conhecida pela sua velocidade nem sentido prático, não acredito que conseguirá refrear tanta loucura. Apesar do poder da imagem, vivemos num universo dominado pela palavra utilizada como arma de negação da verdade. Basta ouvir a declaração de Kristi Noem acerca da execução de Rennee Good, acusando-a de atos de "terrorismo doméstico".
Voltando ao clássico do cinema, depois da revolta da classe trabalhadora, a mensagem é clara: somente através da mediação pelo coração entre o cérebro, que é classe dominante, e a mão trabalhadora, que é classe subjugada, é possível alcançar a harmonia. Uma visão otimista e ingénua que propõe uma ponte entre partes opostas através do coração, como se o entendimento entre classes fosse uma questão moral e não social. A versão completa do filme está disponível no YouTube depois de uma cópia quase completa ter sido descoberta na Argentina em 2008. Vale a pena rever este murro no estômago, tão atual quanto demolidor, que Lang acabou por renegar. Segundo a suas palavras, é um filme tolo e estúpido e a ideia do coração enquanto mediador entre patrão e um operário é um conto de fadas. Ainda assim, vale pela estética arrojada e, sobretudo, pelas metáforas acerca da condição humana.

