
Crítica de música
Compositor, produtor e DJ do norte de Inglaterra, Charles Webster é uma daquelas figuras tipo Zelig que sobressaem na longa, rica e emaranhada história da música eletrónica de dança: carreira a rondar os 40 anos, dividida entre o lado de lá (São Francisco) e de cá do Atlântico; presença ao lado de autores capitais do tecno e do house em diferentes capítulos dos idiomas desde a década de 1990; e uma discografia copiosa, de máxis e álbuns e DJ mixes e compilações, em nome próprio ou sob heterónimos, além de cachos de remisturas.
As novas aventuras de Charles Webster têm como sede a Cidade do Cabo, para onde se mudou. A lógica é cristalina: as suas resplandecentes criações no território melódico e quente do deep house tiveram, a partir do final do século passado, uma influência acentuada em músicos e produtores da África do Sul - e se o país já tinha no kwaito uma derivação sofisticada do house nova-iorquino, não será estapafúrdio argumentar que este legado, aliado ao trabalho de gente como Webster, fertilizou a terra de onde brotou o amapiano, um dos sons mais populares do Globo nos últimos anos.
Não é bem amapiano aquilo que se escuta em "From the hill", álbum chegado no fim de 2025 e creditado a Charles Webster & The South African Connection, mas a árvore é, definitivamente, a mesma. Projeto arquitetado por Allan Nicoll, aliás Kid Fonque, DJ e produtor sul-africano responsável pela editora Stay True Sounds, "From the hill" coloca Webster em diálogos de estúdio com mais de uma dezena de autores locais de eletrónica de várias gerações. De onde nasceram longas e sábias construções eletrónicas em crescendo, prenhes de pormenores, mais diretas ou mais oblíquas. É arquitetura com uma subtileza, segurança e largueza de vistas que fazem com que nenhuma das 13 faixas soe sobrecarregada, em stress. Evocativas, planantes, densas, cinemáticas ou portadoras de uma corrente elétrica a que corpo algum escapa, tudo nesta cimeira é generosamente house, é África, é política, é sensual, é presente e futuro.

