O Mundo em ponto de ebulição
A incursão dos EUA na Venezuela veio mostrar que as ameaças de Donald Trump são para levar a sério. Entre os interesses estratégicos e económicos e uma aparente tentativa de conter danos a nível interno, a mira americana oscila a ritmo frenético, da Gronelândia à América Latina, passando pelo Irão. E, para desespero dos europeus, nem a NATO é já garantia do que quer que seja.
Quando, na ressaca da vitória nas últimas eleições presidenciais, em novembro de 2024, Donald Trump surgiu a dizer que queria controlar a Gronelândia, o Canal do Panamá, o México e até o Canadá, a reação generalizada andou entre o riso, o descrédito e o vaticínio de que o recém-eleito presidente americano teria enlouquecido de vez. Pouco mais de um ano volvido sobre essas delirantes declarações, o cenário não podia ser mais distinto: por estes dias, poucos duvidarão de que as ameaças de Trump são, no mínimo, para levar a sério e muitos temem o futuro de um Mundo em que o direito internacional é pouco mais do que uma utopia. Dir-se-á que as normas que regulam as relações entre Estados soberanos há muito não eram cumpridas na íntegra, mas não há como negar que a intervenção militar dos EUA na Venezuela - capturando o presidente em funções, Nicolás Maduro, e prometendo apoderar-se das reservas de petróleo do país -, abre uma nova era de incerteza à escala mundial, um imenso "vale-tudo" em que ninguém está a salvo. Tanto mais quanto à operação militar empreendida no país de Maduro se têm sucedido ameaças constantes, disparadas com uma cadência quase diária e em direções várias, da Europa à América Latina, passando até pela Ásia. Cuba, Colômbia, México, Panamá, Gronelândia e Irão são alguns dos países ou territórios que têm estado insistentemente na mira de Trump, que parece empenhadíssimo em recuperar cabalmente a doutrina Monroe. Tudo leva a crer, portanto, que a recente deriva neoimperalista do presidente americano não ficará por aqui. E que a ordem internacional liberal está ameaçada de morte, com todas as implicações que daí poderão advir.

