Daqui a dois dias faz um ano que a Adília Lopes partiu. A poetisa esquecida que vivia sozinha com os seus gatos num apartamento sombrio e desarrumado foi elogiada por muitos, a sua obra melancólica e irónica foi relembrada, os seus poemas mais emblemáticos voltaram à ribalta por breves instantes, brilhando como estrelas cadentes. "Não sei se me interessei pelo rapaz por ele se interessar por estrelas se me interessei por estrelas por me interessar pelo rapaz." A voz de Adília mantém-se tímida como um sopro de luz em antologias de poesia, mas já poucos se lembram dela. Em agosto deste ano, a Teresa Caeiro deixou-nos. Foi deputada, secretária de Estado da Segurança Social, secretária de Estado das Artes e dos Espetáculos, vice-presidente da Assembleia da República em três legislaturas. Lutou e conseguiu para que a vacina contra o HPV integrasse o plano nacional de vacinação e pela venda dos medicamentos genéricos. Só o legado destas duas conquistas ajudou e irá continuar a ajudar a salvar muitas vidas. Os media e as redes sociais cobriram-se de homenagens, o seu espírito de missão foi elogiado, a sua humanidade profunda e generosa foi por todos enaltecida. Como disse Adolfo Mesquita Nunes, era a nossa amiga genial. Há menos de um mês, faleceu a escritora e bióloga Clara Pinto Correia, vítima de um AVC. Conheço bem esse monstro; visitou-me em 2007 e voltou em duas fugazes aparições nos anos de 2012 e de 2014. As incidências de repetição em caso de AIT - Ataque Isquémico Transitório - são altas. Uma em cada cinco pessoas que recebe o aviso, acaba por ser vítima de um segundo episódio, tantas vezes fatal.
Contudo, muitos anos antes de morrer, Clara foi esmagada, ridicularizada e ostracizada pela chamada "elite cultural" por causa de um plágio de um artigo do "The New Yorker" e de uma série de fotografias eróticas tiradas pelo marido. Tal ousadia custou-lhe o seu lugar na universidade. Durante a pandemia refugiou-se em Estremoz onde vivera o seu primeiro e último amor. Em março deste ano publicou "Antares", um romance sobre uma mulher de 70 anos que olha para o céu e vê a estrela, que dá o título à obra, brilhar mais do que o costume. O livro passou desapercebido porque a verdade é que Clara foi cancelada. Tal como Adília, com o seu datado penteado à heroína da Enid Blyton, e também, de certo modo, a Tegui. São três personalidades que ajudaram a construir a identidade portuguesa nos últimos 50 anos na literatura, na investigação científica e na política. Três vozes relevantes e importantes, estimadas pelas mulheres, nem sempre compreendidas pelos homens, amiúde mal toleradas pela sua coragem, originalidade de pensamento e rasgo.
Estranho país este que ignora os seus enquanto estão vivos e lhes dedica rasgados elogios fúnebres. A morte cai sempre bem a quem insiste em remar contra a maré, contra o sistema, contra a misoginia. Portugal é exímio em fabricar heróis póstumos. E é tão triste que assim seja. Imagino-as num lugar a que alguns chamam céu, onde Adília acreditava que existem bibliotecas e onde se pode ler e escrever.

