
Pedro Chagas Freitas é um dos autores mais lidos em Portugal e em países como Itália, Brasil e México. O seu livro "O hospital de alfaces" vendeu 90 mil exemplares em menos de oito meses e já vai na 11.ª edição
(Foto: Artur Machado)
O boneco é uma figura sagrada para a família do escritor.
"Chama-se Tigão. Não é só um tigre de peluche; é uma figura sagrada para nós todos. Um tigre de peluche não devia carregar tanta memória. Este carrega. Acompanhou o meu filho durante três meses de hospital, entrou com ele em salas dolorosas onde nós, os pais, não podíamos entrar. É um boneco que vem da esperança.
Na barriga tem riscos bordados, uma imitação inocente da cicatriz verdadeira do Benjamim. Foi personagem principal dos teatros improvisados que fazíamos para enganar a angústia. Acabou a ter um livro em seu nome: "O Rei Tigão". Com ele, conseguimos oferecer quase onze mil euros ao Pediátrico de Coimbra. Um peluche a ajudar a salvar o Mundo: quem diria?
Quando o olho, vejo tudo. O hospital, a espera, a quase-desistência, a impossível resistência. Choro muitas vezes quando o vejo. Alguns objetos tornam-se talismãs contra o impossível. O Tigão é isso: a fé disfarçada de pano, de espuma; uma espécie de sobrevivência costurada, e sobretudo a alegria que se recusa a morrer. Acho que ele é um animal de peluche mais corajoso do que qualquer adulto. Deve ser a criatura mais sábia cá de casa. Depois do Benjamim, claro."
Pedro Chagas Freitas
Escritor, jornalista, formador de escrita criativa, orador
46 anos
