
Crítica de música
Há mais de uma década que Teresa Castro revela música sua. Define-se como compositora, multi-instrumentista (a guitarra parece levar a dianteira) e artista sonora, chama casa ao Porto. A primeira maqueta chegou em 2015 e tem complementado essa faceta, até agora episódica, com música para teatro, cinema e instalações sonoras. A estreia em disco acontece, finalmente, na alvorada deste ano, através da nova editora independente Ovo Estrelado. "Soon after dawn", o álbum registado como Calcutá, é obra brava, breve e suspensa na atmosfera, na qual Teresa se ocupa de quase toda a matéria sonora (guitarra, harmónio, voz, sintetizador, baixo e piano). Para Luís Barros deixa a percussão, bateria, melódica e piano. E para Catarina Marques a campânula, um peculiar parente do violoncelo no qual, sob as quatro cordas tocáveis, existem mais 16 cordas que, pelo efeito da ressonância, produzem um som denso, que invade todo o campo.
Com mais ou menos campânula, os oito temas de "Soon after dawn" navegam em densidade. Têm corpo (melhor, corpos) de canções, texturas ambient, guitarra de blues desértico, cachos de vozes etéreas, estranheza cristalina, minuciosos, sem pressas. Uma tempestade elétrica assola parte de "Run come rally", versão agitada de um tema do cantor reggae Ras Michael. "Wet grass" é um tricotado circular meio Terry Riley, meio drone folk psicadélico, as raízes nas ilhas britânicas. Guitarra acústica e piano dançam juntos numa madrugada de geada em "Nocturne snippet". A dinâmica de "Eterno retorno" é a do pós-rock, a de "Spirit of Eden" dos Talk Talk.
São múltiplos os estímulos a percorrer as composições de Teresa Castro, e a uni-los há a sensação de se assistir à construção de matéria palpável, observável. Mesmo que, por contraditório que possa parecer (não é), se esteja a lidar com música contemplativa, mantras com a textura do musgo e a altura de basílicas. "Soon after dawn" é místico, ou esotérico, ou ácido, ou tudo isso.

