Por vezes, chegar à Corunha implica atravessar o fim do mundo que são as intempéries do Norte, piores ainda quando se entra na Galiza e tudo parece oceânico, o país metido água a fundo, um país náufrago. Para ouvir Wole Soyinka dizer seus poemas, navegamos estradas acima à cautela, mas fortes contra qualquer Inverno, com tanto medo quanto esperança. Com muita esperança.
Soyinka é um líder de valor infinito. Precisamos dele e da sua erudição. Usamos os seus livros e o seu pensamento para a humanização essencial. Quando vimos a publicação da Yolanda Castaño dizendo que o receberia no seu importante ciclo Poeta Di(n)versos, julgámos sonhar com um Mundo perfeito, uma justiça que finalmente viria para as nossas terras. Entrada livre no Centro Ágora para ouvir um homem que se torna uma das estruturas mais valiosas da contemporaneidade. Com os seus livros devemos segurar as casas, as ruas, as montanhas, as pessoas todas, as de coração no lugar certo.
Há anos que troco frases de Soyinka com amigos cujo projecto de vida segue sendo o de incluir dignamente toda a gente. Trocamos suas frases como dinheiro que aumenta quanto mais se usa. O carisma do professor Soyinka é de pura liderança, e o que nos traz, a partir de sua africanidade, é o centro de tudo porque está como ancestralidade de todos nós, um radical da fortuna de se ser pessoa.
Estou a matar inimigos contando que fui ouvi-lo a dizer poemas. Profundos poemas que seleccionou para aludir às questões da exclusão e da desumanização. Enquanto a Corunha se enfurecia de chuva, dentro do Ágora estava uma multidão em aula, uma multidão na escola inteira que Soyinka é. Foi mais do que lindo, foi perfeito.
Em mãos, eram muitas as pessoas a mostrar o recente romance "Crónicas de lugar do povo mais feliz da Terra". Uma Nigéria, ou uma África, sempre sujeita ao pior abuso, a hipocrisia dos grandes poderes na gestão do abuso com povos cuja natureza aspira sobretudo à paz. Não há como escapar à lucidez de Wole Soyinka. Se não se quiser lidar com ela agora, mais tarde haverá de dizer-se que o aviso estava feito, e era claríssimo. Brilhante e preciso. Como é costume nos mais geniais autores.

