"A vida como ela é" é uma crónica quinzenal assinada pela escritora Margarida Rebelo Pinto.
Daqui a dias todos os portugueses podem exercer o direito de voto na eleição do próximo presidente da República (alguns, que optaram pelo voto antecipado, já o fizeram). Poder exercer tal direito em total liberdade parece tão adquirido que muitos nem sequer se dão ao trabalho de o fazer. Sempre que decorre uma eleição em Portugal, o que mais me entristece é a abstenção. Não consigo entender como um direito tão fundamental para a saúde de uma democracia é menosprezado por aqueles que nela vivem. A democracia é um sistema político frágil, como todos os outros, mas acredito que é o melhor que podemos ter, e como tal, o direito ao voto deveria ser uma obrigação moral na consciência de cada português.
O início do ano foi marcado pela captura do ditador Nicolás Maduro pelo Governo de Trump. É provável que este acontecimento funcione como gatilho para complicar ainda mais a nova desordem mundial, com consequências cujo alcance nos é difícil medir. Uma coisa é certa: quando o presidente Trump, colérico, imprevisível e descontrolado, decide armar-se em cowboy ao estilo do Faroeste e fazer valer a lei do mais forte, os seus pares russos e chineses sentem que ganham legitimidade para lhe seguir os passos. Qual o sentido de Estado de Mr. Orange, como a Esquerda dentro dos USA gosta de se referir a ele, mostrou ter? Falar de responsabilidade e de Trump na mesma frase é o mesmo que tentar comer sardinhas com chantilly, nunca corre bem. Dito isto, longe de mim legitimar Maduro, a figura de proa de um sistema de corrupção que destruiu o país com as maiores reservas de petróleo do Mundo, subjugando-o a uma ditadura cruel e devastadora a todos os níveis. Sobre a complexidade deste tema, vale a pena ouvir a explicação de Miguel Morgado na SIC Noticias transmitido na passada segunda-feira.
Voltemos então ao nosso querido jardim à beira-mar plantado, onde os níveis de populismo escalaram nos últimos anos, protagonizados por vozes que se definem como sendo contra o sistema. Ter um discurso contra o sistema tornou-se uma cena trendy; vende a ideia de que este está gasto e cheio de vícios e põe na cabeça das pessoas a ideia de que basta ser contra o sistema para representar uma solução. Posto isto, perfilam-se novos candidatos fora do dito, que prometem abaná-lo. O problema é que nenhum destes candidatos parece ter a noção do que é a função de um presidente da República.
A ver se nos entendemos: o PR não legisla, ele é um garante da constitucionalidade de quem o faz. O PR equilibra forças, medeia conflitos, usa de uma qualidade que se chama sentido de Estado. Ter sentido de Estado é conseguir perceber o que é melhor para o país e para as pessoas, porque todas as ações têm consequências, principalmente na vida política. Não sendo o líder da política externa, representa Portugal no Mundo. E o Mundo nunca esteve tão complicado como agora. É preciso sair da retórica da campanha eleitoral para a realidade nacional. A nível interno precisamos de consensos, a nível externo precisamos de firmeza e de prudência perante uma Europa fragilizada e não de um PR repentista, imoderado, com pouco ou nenhum sentido de Estado. E todos os votos contam.

