"Pai aos 50" é uma crónica semanal assinada pelo escritor Joel Neto
Dantes ria-me. Diziam-me:
- Até ando com uma ideia na cabeça, mas não tenho tempo para escrever.
E eu tentava condescender:
- Percebo...
Mas não percebia nada. Dentro de mim, desdenhava deles. Velhos amigos, malta da faculdade, colegas dos jornais: tudo escritor e, afinal, ninguém escrevia. "Falta de compromisso", proclamava, em silêncio. Que espécie de escritor poderia ser esse que, no fim de contas, é capaz de viver sem escrever?
De lá para cá, como se diz nos filmes, aconteceu a vida. Muitos deles começaram a escrever, ou retomaram a escrita, e alguns até publicam agora um livro por ano. Eu, pelo contrário, estou há anos sem lançar um romance, e o livro em que venho empreendendo tanto dá sinais de que começa a avançar como, no dia seguinte, recua e arranca noutro ponto, com outro centro de consciência, nas mãos de outra personagem.
Mas, pelo meio, assoo narizes e limpo rabinhos, dou banhos e lavo dentes, tiro febres e administro xaropes, planeio jantares e improviso lanches, faço compras e mudo caixotes de lixo, trato de cães e encomendo garrafas de gás, deixo instruções à empregada e imploro ao jardineiro que venha trabalhar - sempre com a sensação de que estou atrasado (que estou).
E nessa altura ainda nem saí de casa. Porque, depois de sair, ainda troco centenas de emails e whatsapps, faço encomendas e negoceio créditos, varro migalhas e confiro reacções, combino actuações e planeio agendas, recebo telefonemas (recebo um milhão de telefonemas) e apresento eventos, sirvo de psicólogo aos empregados e de mordomo aos clientes, acerto fornecedores, parceiros, senhorios, carpinteiros, electricistas, canalizadores - sempre atrasado, sempre atrasado, sempre atrasado.
E ainda nem bateram as cinco da tarde. A seguir ainda passo no jardim-de-infância, venho para casa e começo de novo na primeira lista, enquanto tento não negligenciar o desejo do Artur de brincar comigo, de ver o Rei Leão comigo, de tratar dos cães comigo, porque é mimoso e sequioso de vida, e ainda bem.
(Isto, aliás, porque eu e a Marta somos casados em regime de comunhão de tarefas. Não existisse o outro, o trabalho dobrava.)
E a minha dúvida é: que espécie de impacto este modo de vida poderá ter no Artur e na Salomé? Nunca me esqueço: foi o meu pai quem me incutiu a devoção ao trabalho e, afinal, até ele me disse um dia "Eh, lá, tem calma que o trabalho não é tudo na vida". Como vou eu, pois, conseguir explicar aos meus filhos que, a certa altura da vida, deixei de ter tempo para tudo aquilo com que um dia esperara mudar o Mundo?
A minha única esperança é que compreendam que nem um segundo a limpar rabinhos, a assoar narizes ou a tentar sustentar esses rabinhos e esses narizes foi tempo desperdiçado. E que, bem vistas as coisas, nada pode mudar mais o Mundo do que realmente tirar tempo para isso.

