Em Janeiro do ano passado, num sábado de sol, abri o portão do prédio onde cresci para mostrar ao Porto um segredo, uma preciosidade: a maior e mais bela magnólia do país. Irradiava de branco, incendiada de flores grandes como punhos. Pedia para ser vista.
Escrevi uma "Ansiedade Crónica" anunciando uma casa aberta, fez-se notícia por aqui, pela "Time Out", por essas redes sociais fora e mais tarde na SIC, mas nunca pensei que aparecessem milhares de pessoas para contemplar uma árvore que até então era apenas para os olhos de quem crescera naquele prédio.
Tal foi a emoção das pessoas, os abraços dados ao tronco, o quanto a admiraram, que certamente a própria magnólia se espantou. À beleza da árvore juntava-se a beleza do ser humano contemplando algo que o transcende. Lembro-me bem de um velho senhor que se deslocou aos pés da magnólia de cadeira de rodas.
Isto convenceu-nos, a mim e a outros vizinhos do prédio, a propor ao ICNF a classificação da árvore. Queríamos que este ser vivo fosse legalmente protegido: hoje e sobretudo amanhã, quando estivermos mortos, ninguém poderia aproximar-lhe a motosserra.
Um ano depois da candidatura, o ICNF enviou aos proprietários do prédio um ofício confirmando que a magnólia supera todos os requisitos para ser protegida como árvore de interesse nacional. A classificação estipula algumas medidas sensatas de protecção e proíbe o abate, o que só valoriza o prédio e em nada muda a vida dos moradores.
A alegria seria muita, não fosse a oposição injustificada e inconcebível da família Couto Soares, que detém metade das fracções do prédio. Os Couto Soares teriam originalmente uma quinta naquele terreno; arrasada a quinta, construíram o prédio cujas fracções foram sendo vendidas.
A oposição desta família, cujos membros fizeram juras de amor à árvore aquando da casa aberta, vai impedir que esta magnólia única seja protegida. Apesar de cumprir todos os critérios para ser classificada, apesar de a lei não exigir a concordância dos coproprietários, e apesar de se encontrar especialmente vulnerável por estar longe do público - o ICNF, provando que este país é ingovernável, informa que não protege a árvore se se mantiver a oposição desta família.
E assim eis que um ser vivo único e centenário - frágil por estar longe da vista - fica à mercê de um conjunto discricionário de pequenos mamíferos, que não aceitam protegê-la alegando mera inconveniência.
Ora, descartando eu que estes diminutos mamíferos sejam imbecis, já que a protecção não obriga a qualquer constrangimento atendível, só posso concluir que se sentem confortáveis em manter em aberto a possibilidade de abater a árvore. E isso é inaceitável.
Espero que a cidade que se ergueu em festa para contemplar a magnólia seja a mesma cidade que se ergue agora em sua defesa. Talvez ainda vamos a tempo de a proteger da motosserra.
o autor escreve segundo a antiga ortografia
*Escritor

