Repara, país cómodo, país seco, país com a pata fora da poça: Lisboa, cidade da luz e da fachada restaurada, do café trendy, do vegetariano pela primeira vez Michelin, do turista de manga curta no Inverno, da trotineta abundante, do tuk tuk giratório, do superavit camarário, essa cidade - Lisboa de vender para fora - é demasiado papel de embrulho.
Embrulhada vai outra coisa. E encharcados estamos nós. Dentro está a cidade que se instalou em cursos de água e não soube precaver-se, apesar de avisada e reavisada. O problema está limpamente identificado há décadas, mas só agora, em cima do dilúvio, se fala de obras lá para quando for, num dia mais nunca.
Lisboa subaquática é a linda cidade que preferiu esmerar o embrulho a resolver um drama estrutural, e que só não pertence à ficção - tipo história trágico-marítima - porque isto não se inventa.
Sim, gente do país seco, sei que pareço o maluco dos temporais. Há um mês, filmei da janela de casa o tornado que revolveu Lisboa, e depois revolveu a Internet com milhares de partilhas. Na semana passada, apanhei a minha rua feita rápidos - e Alcântara, onde vivo, em mergulhos para o Tejo.
Mas ontem nem pensei em filmar. Acordei com a sensação de que a cama balançava. Os quadros também. E a manga do casaco pendurado na porta acenava-me adeus. E adeus era também o que a casa dizia à rua - o que me pareceu estranho: é que a casa tem ficado no mesmo lugar desde que a comprei.
Depois senti o enjoo de quem vigia o horizonte no cesto da gávea. Era o enjoo do mar alto onde nunca estive. Abri a janela: claro, Alcântara acabava de se desprender de Belém, de Monsanto, da Estrela, de Campo de Ourique, e segurava-se só ao fio da Avenida de Ceuta.
Mas rebentou a garganta cheia e engasgada do caneiro debaixo da avenida, e com ela a ligação do bairro à cidade. Flutuámos, nós todos - mercearia da senhora Fernanda sim, e Lx Factory também -, primeiro pelo rio, embatendo nos pilares da ponte, e então com a corrente em direcção às ondas, ao largo do farol do Bugio.
E aqui boiamos, nós e as nossas ruas, nós e os nossos quarteirões. Dizem os comerciantes aos jornalistas que ficaram por cá: "Os danos são um bocadinho avultados". Aposto que nunca viram um bairro flutuante, pois não, gente seca? Podem ver-nos agora, enquanto vos acenamos ao longe.
Esta Lisboa mal pensada, esta Lisboa inchovível, deixou à deriva bairros como Alcântara, pobres por tradição e mal mantidos por falta de planeamento e incúria. Bairros que voltam aos riachos e ao rio de onde foram aterrados.
Mesmo ficando no sítio, não há mar tão alto como sessenta centímetros de água numa cidade.
*Escritor
o autor escreve segundo a antiga ortografia

