Ansiedade crónica

Manual de instruções da máquina dos brandos costumes

Manual de instruções da máquina dos brandos costumes

Estou atento à máquina dos brandos costumes. Nos últimos tempos, tenho visto muito fumo, suspeitei muito fogo, fui consultar o manual de instruções.

O livro estava na Torre do Tombo, mas não é tão velho como seria de esperar: isto dos nossos brandos costumes foi inventado para servir o Estado Novo; antes de 1933, vemos a história e não os encontramos. De frente para trás, assistimos a trocas violentas de governos, a regicídios, a guerras civis, e até, se seguirmos por aí, encontramos os desgraçados dos Távora ou, uns anos antes, as cabecinhas indígenas que Afonso de Albuquerque diligentemente alojou na garganta dos canhões.

A invenção desta máquina refreou-nos: já nem a voz levantamos por dá cá aquela palha. Mas metermos os olhos para baixo e não zurrarmos de dor quando nos batem, seguindo simplesmente o caminho das palas como as mulas, também incomoda um bocadinho.

Diz na página 1 do manual, antes do índice: "Optou por uma máquina dos brandos costumes de marca portuguesa. Por favor, consagre alguns minutos para ler estas indicações e conheça as vantagens. Espreite também a secção sobre avarias".

Esta última secção é crítica, aquela que nos indica a origem do fumo. "Em caso raro de pandemia, de modo a evitar que se sobrecarregue a boa vontade do povo, evite dualidade de critérios. Exemplos: permitir que os ingleses festejem à solta no Porto enquanto reprime e dispersa os portugueses que festejam à solta nos miradouros e jardins. Fazer do futebol excepção, e aplicar normas rígidas a todas as outras modalidades. Deixar magotes de sportinguistas na farra, mas fiscalizar e multar restaurantes que não fechem exactamente às 22.30 h", lê-se na tabela de avarias.

A julgar pelo que estipula o manual, estamos a abusar da máquina dos brandos costumes. Sobrecarregámo-la com demasiada dualidade. Juntando-se-lhe as já cabritadas ministeriais - como achar boa ideia que se aproveitem as alas desactivadas das prisões para abrigar migrantes, e a gabarolice sobre a redução da sinistralidade rodoviária num ano em que mal saímos de casa -, e temos uma avaria que pode implicar a substituição de peças.

Que a máquina tenha aguentado em funcionamento neste culminar de mais de um ano de pressão explica-se pelas maravilhas da inércia, que por cá têm sido a força maior. Ao contrário de Espanha ou França, o povo está bem amestrado pela brandura de costumes, que é a imagem conveniente que temos de nós próprios.

PUB

Mas os arraiais proibidos de Lisboa e o São João permitido do Porto aí vêm, a juntar tensão e festa à máquina. Já estivemos mais longe de desbrandarmos os costumes.

Escritor

o autor escreve segundo a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG