A entrevista de Salman Rushdie à "New Yorker Radio Hour", a primeira desde o atentado à faca, podia ser "notável", não fosse essa palavra uma casca de palavra. A gente usa-a tanto que ela se esvaziou. Salman Rushdie é de tal forma notável que é mais - é inesfaqueável.
A fotografia que acompanha o perfil escrito por David Remnick para a "New Yorker" desta semana mostra-o quase sorridente, quase a cores apesar do preto-e-branco, e quase com os dois olhos, porque continua clarividente. A lente direita esconde o olho perdido, dando-lhe a aura de comandante de alto-mar.
O mar revolto tem sido a vida. Até Agosto do ano passado, navegou como se não pendesse sobre ele a "fatwa". E recusou que esta o destruísse como homem e por isso como escritor. Fez a vida, escreveu 16 livros sob ameaça - "nunca amedrontados ou vingativos", diz -, como se tivesse criado um alter ego que habita um mundo sem fanatismo religioso.
Mas muitos criaram-lhe outro sósia. Ressentidos da vida aberta que Rushdie levou nos últimos vinte e muitos anos, como se a sua liberdade os pusesse em causa, puseram um "outro eu a andar por aí". Inventaram um Rushdie desagradável, inconveniente, não frequentável, um Rushdie pouco lá de casa. E a aversão a esse sósia - no fundo, a superioridade moral de virar a cara a um burgesso -, era o verdadeiro motivo para se afastarem. Nunca o medo de que a proximidade lhes pegasse o miasma da "fatwa".
Felizmente para tais pessoas (que alívio), Salman Rushdie foi esfaqueado. Depois de várias operações e de semanas no hospital, o próprio sobreviveu - mas o sósia não teve a mesma sorte. Facadas muitas, a jugular sustida por um polegar salvador, mãos sobre o abdómen jorrado em sangue, e o olho direito já desalojado, tendem a matar sósias.
Concretizada a ameaça da "fatwa", a essas pessoas já não se lhes pegaria o miasma. Desfez-se logo a ideia do Rushdie-outro, aquele que causara o afastamento. "E agora todos me amam", diz o verdadeiro Rushdie.
A cobardia é um encolhimento, há sempre alguém pequeno o suficiente para cada ocasião, não temos sequer de buscar exemplos dramáticos como o de Salman Rushdie. Bem patético, o teatro das pequenas cobardias.
Mas também bem tocante, um homem que continuou homem apesar da ameaça. Um homem que nunca se apequenou e que diz o que pensa sem medo de miasmas.
Em breve sai o romance que Rushdie acabou pouco antes do atentado. Até lá, já se meteu noutro delito digno de uma "fatwa" laica: diz que a série "White Lotus", tida pelo vulgo como maravilha das maravilhas, é uma perfeita bodega. Bendito seja.
*Escritor
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

