O futebol passou ao lado da minha vida. E eu passei ao lado da vida do futebol. Mas até eu, que tenho dificuldades em distinguir o Messi de outros jogadores; até eu, que fraquejo quando é para compreender as regras do fora de jogo; até eu, que sou incapaz de ter conversas de corredor sobre o Benfica, o Porto e Sporting, até eu sinto um pequeno entusiasmo com os Europeus e os Mundiais.
Terei passado ao lado do futebol - considero perdida a paixão por um jogo que reconheço ser emocionantemente arte, cultura e físico -, mas não passei ao lado do paradoxo ético no qual um mandarim foi chamado a figurar. Foi chamado a morrer.
Chateaubriand perguntou pela primeira vez: "Se eu pudesse, por mero desejo, matar um meu semelhante na China e herdar a sua fortuna na Europa, tendo a certeza sobrenatural de que o acto nunca seria descoberto, formularia tal desejo?"
Este paradoxo, ao qual chamam fábula moral, caiu no goto de escritores e filósofos, que têm um goto interminável parecido com o fígado de um ganso preparando-se para o paté. Cai lá dentro tudo, e depois nós comemos com gosto.
Eça foi talvez o que desenvolveu melhor este paradoxo na ficção. Teodoro tem um salário medíocre, vive num quarto medíocre, é uma pessoa medíocre. Uma noite, o diabo aparece-lhe à cabeceira dizendo-lhe que, para herdar os milhões do mandarim, bastaria que tocasse à campainha que magicamente apareceu na mesa-de-cabeceira. Claro, Teodoro toca à campainha, e o resto é spoiler. Mas aviso que não é bonito.
Não querendo fazer uma leitura literal do paradoxo, que é simplesmente um problema moral, a magia entrou tão bem no nosso quotidiano, rotinizou-se de tal maneira, que nós nem damos por ela. A tecnologia, tal como hoje dela dispomos, segue a máxima de Isaac Asimov segundo a qual "qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia".
Se aceitarmos esta ideia, que também caiu no meu goto sedento, vivemos hoje na era da magia e, portanto, do sobrenatural. A tecnologia e a globalização levam-nos, cada dia, a tocar à campainha de inúmeros mandarins.
O mero acto de ver liga-nos directamente à pergunta de Chateaubriand. O comando da televisão, o ecrã do telemóvel e o rato do computador são as nossas campainhas.
E a China da fábula, hoje, fica no Catar - país pejado de mandarins: os milhares de migrantes que morreram ao construir os estádios, os direitos das mulheres, que nem direitos são, os direitos LGBTI outro tanto, a censura e a autocracia, para não falar de todo o processo corrupto que levou ao acolhimento do Mundial naquele país. E até os estádios com ar condicionado.
Não sofreremos consequências por vermos os jogos, a morte literal e figurativa acontece lá longe, fora da vista e do coração, mas somos nós que tocamos à campainha.
*Escritor
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

