Opinião

A condição humana

A condição humana

A boa notícia da eleição de António Vitorino como diretor-geral da Organização Internacional das Migrações, mais uma grande vitória da política externa portuguesa, depois das eleições de António Guterres nas Nações Unidas, ou de Mário Centeno para o Eurogrupo, não pode desviar-nos da inquietação que devemos sentir perante o que se está a passar nesse domínio. E não, não podemos cair na tentação, como que reconfortando as nossas (más?) consciências, de concentrar todo o mal na figura grotesca de Trump e na sua cruel e humanitariamente criminosa atitude com as famílias que tentam atravessar a fronteira entre o México e os EUA, contrariando, aliás, toda a história da construção da grande nação norte-americana, assente na imigração. Sim, a política de Trump é inaceitável e constitui uma penosa regressão civilizacional. Mas a verdade é que o mal também está entre nós, na Europa, que chamamos e queremos nossa, com a cultura crescente dos egoísmos nacionais, da inveja, da xenofobia, da resistência à diferença e, acima de tudo, essa recusa em fazer do humanitarismo uma política comum da UE.

A recente involução italiana é mais um dado nesta espécie de fascismo larvar que vai fazendo o seu caminho, de Budapeste a Varsóvia ou a Roma, que ameaça agora contaminar Berlim (onde Merkel tem sabido estar à altura das suas responsabilidades, podendo agora vir a pagar um preço político por isso), culminando nessa mão cheia de coisa nenhuma que foi o acordo alcançado no último Conselho Europeu. Este é um daqueles tempos em que é preciso saber estar do lado certo da história, apesar das pressões populistas e dos eventuais custos políticos. E esse - o lado certo da história - é sempre o lado da justiça, do humanismo e do humanitarismo. Saibamos estar à altura.

SECRETÁRIA-GERAL-ADJUNTA DO PS

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