Opinião

Cair de podre

Mais do que o recente avanço das tropas ucranianas na reconquista de território, a melhor notícia para o Ocidente é a (ainda ténue) oposição interna a Putin e que fará mudar o curso de uma guerra que tem levado a Europa a uma crise sem precedentes, mas também a um empobrecimento galopante da população russa.

É que, em Moscovo, está a voltar-se à era soviética com o colapso de uma economia que depende do petróleo e do gás para sobreviver e que basicamente importa quase tudo. Com as sanções, a importação de produtos agravou-se e já há alimentos a faltarem nas prateleiras dos supermercados ou a falharem matérias-primas para produzir umas simples calças. Os russos, que nos últimos 30 anos se habituaram a um estilo de vida de abundância e de consumo, podem não estar disponíveis para apertos em nome da pátria. Não é assim de estranhar que o primeiro sinal de forte oposição a Putin tenha vindo de dezenas de conselheiros de Moscovo e de São Petersburgo a pedir a demissão do presidente russo sob a acusação de alta traição. Cumprindo os requisitos da Constituição, representantes de dezenas de municípios escreveram uma carta à Duma (Parlamento) propondo que o presidente seja destituído do cargo devido às consequências da sua ofensiva na Ucrânia. Os políticos instam a Duma a tomar medidas contra o presidente porque o seu ataque causou a expansão da NATO para a Suécia e a Finlândia e forçou o Ocidente a fornecer milhares de milhões de euros em armas aos ucranianos. Claro está que o promotor, Dmitri Paliuga, foi logo preso e será hoje julgado "por desacreditar o presidente da Federação Russa".

O avanço das forças ucranianas sobre posições que levavam meses nas mãos russas está a abrir as primeiras fissuras no discurso político do Kremlin. Os líderes da propaganda russa instam abertamente a executar os comandantes que deveriam defender o enorme território perdido, enquanto outras vozes reclamam que chegou a hora de castigar quem convenceu Putin de que as suas tropas seriam recebidas de braços abertos na Ucrânia. Até o presidente checheno, Razman Kadirov, falou abertamente sobre os erros na estratégia do Kremlin. A solução desta guerra é mesmo Putin cair de podre.

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*Editor-executivo

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