Opinião

De bolsos vazios

A inflação voltou a escalar mais do que o previsto e não há maneira de a parar, quanto menos fazê-la descer. O anúncio do Instituto Nacional de Estatística de que, em junho, esta atingiu os 8,7% supõe que se coloque um novo travão nas expectativas económicas do país. Há mais de 30 anos que não se via um valor tão alto e, por trás desta subida, encontra-se, sem margem para dúvidas, o disparo dos preços da energia que, apesar dos esforços do Governo, não consegue controlar os efeitos da guerra na Ucrânia nos mercados internacionais. Está claro que as medidas tomadas para parar o preço dos combustíveis já foram absorvidas pelo mercado. E como aumentam os preços dos combustíveis, sobem também os da alimentação, bebidas e transportes, atingindo mais duramente as famílias com menos recursos.

Isto numa altura em que nem o público nem o privado estão dispostos a subir salários. Sem se conhecerem os detalhes das consequências da inflação, pode chegar-se à conclusão que os salários perderam, no último ano, uma capacidade aquisitiva só comparável à desvalorização dos rendimentos provocada pela crise de 2008 e, mais tarde, pela intervenção da troika em Portugal.

Os analistas insistem que, apesar da gravidade, este é um episódio inflacionário conjuntural e não se deve a problemas estruturais. Mas esta explicação, que já vai em nove meses, não é suficiente para acalmar os ânimos das famílias que veem o seu poder de compra reduzido. Por isso se pede que o Banco Central Europeu atue com mais eficácia sem se demitir do seu mandato. Para já, as previsões de crescimento já se ressentiram e Portugal terá de pagar mais caro o seu alto endividamento. António Costa só tomou, até agora, medidas paliativas, mas se a situação se mantiver, será necessário um novo arsenal para evitar as subidas injustificadas de preços. Será muito difícil ao Governo não responder a um legítimo pedido de atualização salarial, com o risco que esta dinâmica aporta se não for adequadamente controlada.

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Editor-executivo

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