Antes do 25 de Abril de 1974, eram os órgãos de soberania da ditadura que utilizavam o lápis azul: censuravam o que era publicado na imprensa e criavam leis da rolha nos vários setores da sociedade.
Chegamos a 2019, 45 anos depois, e a situação inverte-se. Os bancos, que continuam a ter uma preponderância fundamental em toda a sociedade, dão-se ao luxo de utilizar o lápis azul junto dos órgãos de soberania, de negar o que lhes é pedido e ainda de desrespeitar as ordens dos tribunais.
O caso recente mais mediático é, claro, a entrega ao Parlamento de atas rasuradas de reuniões da administração e do conselho de crédito da Caixa Geral de Depósitos. O banco - que, note-se, é público - explica com a soberba de quem decide o que é ou não importante para os portugueses, justificando que a informação rasurada não é relevante para a comissão de inquérito que hoje começa.
O presidente da referida comissão, o deputado do PSD Luís Leite Ramos, vai iniciar os trabalhos sem saber se o líder da Caixa Geral de Depósitos, Paulo Macedo, vai ou não disponibilizar toda a informação pedida, sem filtros. E nesta relação desequilibrada, a ameaça mais forte que um deputado da nação pode fazer é de total submissão: "se a nova informação não for entregue no Parlamento terá de ser justificado caso a caso".
Os portugueses, através dos seus impostos, colocaram em 2017 na Caixa cerca de 4 mil milhões de euros e, desde essa altura, os clientes têm visto subir as comissões bancárias e o fecho de balcões. Por estas e outras razões - entre as quais o respeito por um órgão de soberania -, a atitude da Caixa deveria ser de total transparência.
Nestes tempos mais conturbados em que a credibilidade da Banca está de rastos, a Caixa deveria agir como o farol que nunca foi. Alguém acredita que as atas rasuradas contêm informação que não é objeto da comissão? O que receia a Caixa com a divulgação de informação?
*Editor-executivo
