Opinião

Olhar para o lado

Olhar para o lado

Lamentar não basta. Um crime hediondo como a pedofilia deve ter um tratamento drástico, de resposta imediata e com verdadeiras ações para o evitar. A acusação de que o Papa Francisco sabia dos abusos sobre menores perpetrados pelo cardeal norte-americano Theodore McCarrick veio dar uma nova perspetiva sobre o que pensa a Igreja de um assunto tão delicado e grave. E a suspeita de que Francisco terá ocultado essa informação e até ter dado provas de confiança ao cardeal McCarrick, colocou em causa, de forma inédita, Jorge Bergoglio. Tendo em conta que chegou à Santa Sé com a missão de enfrentar um dos principais desafios da Igreja: a disseminação de escândalos sexuais no mundo católico. Francisco é Papa há cinco anos e tem hoje um confronto aberto com a ala mais conservadora da Igreja. Uma discórdia sempre latente e escondida que agora vê a luz do dia com um documento no qual o ex-arcebispo Carlo Maria Viganò pede a sua renúncia. "Guerra civil" e "Golpe" são as palavras mais usadas pelos vaticanistas para definir a atmosfera de confronto aberto que vem marcando o Pontificado de Francisco. O escândalo McCarrick envolve pessoalmente o Papa e tirou definitivamente da sombra a rede de intrigas fomentada pela ala conservadora da Cúria. Não é por acaso que Viganò é apelidado de "exterminador de papas". Durante o papado de João Paulo II ocupou importantes cargos na Secretaria de Governo do Vaticano e a quem também se atribui a entrega à Comunicação Social dos documentos no escândalo que ficou conhecido como Vatileaks em 2012. Atualmente, o Papa está refém dos setores mais conservadores porque não soube responder no tempo próprio à extensa herança de escândalos que mina a autoridade moral da Igreja.

E o silêncio do Papa tornou-se demasiado ruidoso porque escolheu sempre olhar para o outro lado na altura certa.

* EDITOR-EXECUTIVO

ver mais vídeos