Que a Caixa Geral de Depósitos era um desvario, já todos nós sabíamos. Que era um instrumento dos vários governos para distribuir favores, também. O que não conhecíamos era a profundidade da gravidade e a forma como as várias administrações - pressionadas ou não pelos governos - atuaram de forma tão leviana, não só na atribuição de crédito mas também nas políticas de remuneração dos seus gestores. O relatório preliminar da auditoria da consultora EY só vem pôr a nu aquilo que os portugueses suspeitavam e que os banqueiros e políticos já sabiam e não se preocuparam. Assim se entende a insistência da administração da Caixa em não divulgar os principais devedores aos deputados encarregados da comissão de inquérito. Forneceria mais pistas de uma rede montada para dar crédito a quem nenhum outro banco aceitaria emprestar ou demonstraria a desfaçatez com que foram feitos negócios que nunca poderiam ser feitos. Já se sabe quem é o último prejudicado: o contribuinte. Durante anos debateu-se a privatização ou não do banco público. Nunca se avançou com o argumento de que a instituição financeira era essencial para qualquer governo espraiar as suas políticas económicas. Uma espécie de braço-direito dos ministros das Finanças para impulsionar a economia e fazer de "regulador" do mercado financeiro. Deu no que deu. Não se está a dizer que a privatização seria a melhor opção. Tal não livra os contribuintes de pagarem bancos falidos. Vejam-se os casos do BPN, BPP, Banif e BES. O que se pretende é parcimónia com os dinheiros de um banco público e - mais importante - uma fiscalização do Banco de Portugal que tenha consequências. O elefante na sala é tão grande que este relatório, feito em dezembro de 2017 por encomenda do secretário de Estado Adjunto e das Finanças estava guardado nas gavetas do ministério e só foi revelado porque a comentadora Joana Amaral Dias o divulgou.
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