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Opinião

Mundial da hipocrisia

Um dia antes do início do Mundial de futebol no Catar, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, fez uma convocatória surpresa aos jornalistas para defender a honra de quem organiza a prova depois de meses a fio sob críticas ao país organizador por ser antidemocrático e nada respeitador dos direitos humanos.

A atitude de Infantino só pode ser entendida como uma resposta da FIFA à pressão das autoridades do Catar para que viesse em sua defesa. O fio condutor do discurso do presidente da FIFA foi um ataque à hipocrisia dos países ocidentais que, ao mesmo tempo que participam no evento e o transmitem para os respetivos territórios, criticam o Catar por graves deficiências em direitos humanos e condições de trabalho. Na verdade, Gianni Infantino tem razão ao dizer que os mundiais conviveram várias vezes com regimes que violaram flagrantemente os direitos humanos, como foi o caso mais recente da Rússia, em 2018, ou da Argentina, em 1978, quando era uma ditadura militar.

Ou seja, nada de novo numa organização que, ela própria, teve de suspender os seus dois últimos presidentes por presumível corrupção (Joseph Blatter e João Havelange). Sim. Existe alguma hipocrisia na atitude dos países ocidentais sabendo de antemão que este Mundial foi decidido há 12 anos e nunca se viu alguma ação enérgica em mais de uma década. Guardaram tudo para agora. No fundo, pergunta-se se a crítica ao Catar é legítima numa altura em que os países ocidentais, como Portugal, já há muito entraram neste jogo e enviaram, para além das suas seleções, multidões de jornalistas e adeptos? Mais. Teriam os países ocidentais aceitado um boicote ao Mundial pelo não cumprimento dos direitos humanos quando o evento foi realizado em nações ainda piores?

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A reação moralista atual é algo exagerada, mas é compreensível que as democracias mais avançadas façam críticas a um regime onde os homossexuais são altamente castigados e onde as principais vítimas de graves violações de direitos humanos são as mulheres, todas sob a guarda de homens. Daí a seleção inglesa ter feito um gesto ao ajoelhar-se antes do jogo com o Irão na defesa dos direitos humanos. Tudo certo.

Editor-executivo

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